22 de jun de 2018

CLANDESTINIDADE

Por mais que não me olhe
Imagino que imagina quando olha,
Mesmo que a cidade nos estreite
Na sua mesquinhez e no seu espaço
No entulho de objetos e pessoas,
Mesmo que só pense em sua aparência
E a vida se espalhe cheia de cotidiano,
De exageros e besteiras.

Pode imaginar muito pouco,
Mas se imagino em demasia
Vejo o que imagina em você,
Me imagino assim e me deito
Naquilo que invento e entro
Às escondidas em amplitude.

Não acredito no que sou
Nem naquilo que você julga ser,
Pois deixamos de ser quando vistos.
Não importa a largura e a altura
De como nos imaginamos,
Mas uma coisa nos destina:
Ocultamente encostamos um no outro.

23 de abr de 2018

OS OLHOS COMEÇARAM A PENAR



às vezes as coisas no homem
dão assim para penar.
e na pena de pensar
e de pensar penando
os olhos começaram a penar
como uma vizinha
um mendigo, uma montanha
como pena esta cidade.
de tanto olhar acabei nesta pena
com um sorriso no canto da boca
(se fosse em branco
como é o branco
não teria pena daquela folha.
mas numa folha impressa
cada pena é a letra da folha.
se fosse folha de poema
mas é folha de jornal.
se fosse folha de árvore
jamais teria pena
mas essa pena é quase
quase uma pena de ave
que na doença perdeu as penas)
às vezes as coisas no homem
dão assim para penar.
como aquele que um dia
esqueceu o leve da pena do pássaro
para dar à pena da composição
o seu grande espírito
que, arrebatado, sentiu dor
e deu à pena a forma de bico
se viu feito um pássaro
mas, sem voo, escreveu
a doença do sentido pena

Do livro Água Fria (2017)

20 de fev de 2018

VIAGENS ENCALHADAS



Navego ainda em um navio
Que nunca saiu do lugar.
Ouve-se o ruído de cordas
Antigas ou novas e paradas.

Pensa sempre que está além
Desse embaraço. Pode ouvir
Ao largo as vozes de viagens?
Sorrisos, resíduos e vazios.

Que distante volta me provoca!
Amor, não venha com arrogâncias.
Bom seria se viajasse ao lado
De tudo que não saísse do lugar.

Mas pelo visto vai recusar,
Seu olhar sem saber se repete:
Acha melhor ficar encalhado
Em outro país ou na esquina.

2017

7 de jan de 2018

INSTANTE


na hora do fastio
de pouco dia
de pouco ar
de hora ou segundo
de muita ou nenhuma
poesia
de falta ou de muita
palavra

sem poema
sem pensamento
sem linguagem
um cão se deita
deixe o mundo passar

seja dia ou noite
quarto ou varanda
seja no meio do mundo
no meio da rua
sentado a uma cadeira
uma mosca passa
deixe tudo estar

no opaco, no claro
deixe o mundo passar
se deitar

14 de nov de 2017

ONDE FOI QUE EU VIM PARAR?


onde foi que eu vim parar?
me largaram nesta terra
nesta em que só se tem
pés e passos que saem
para estar em outra terra

nem se vê simples o solo
pois antes do chão se vê
o céu. Mas deste nada brota,
nada rebenta, nada rasga
e mantiveram os pés no céu

deste dia pra cá se perdeu
o azul, o marrom, o lilás.
por isso aqui me pergunto
onde foi que eu vim parar?
nesta terra sem terra alguma
neste céu que é outra coisa

desses olhares à distância
ao meu redor me cerquei
me prendi e aqui parei.
de tanto ouvir ao longe
fico e imagino outra terra
cansado do que não existe

dizem que me aborreço
desta terra, de estar aqui.
nada disso, nada disso!
esgotado de ter que sair
dela - disto estou cansado -
de olhos que olham pra lá

às vezes me põem algemas
estas de rejeição e ojeriza
e fico em linhas cáusticas.
sem dar por isso me deixo
às vezes ir para esta noite
pobre, cheia de sono pesado

daí olho para o chão e sorrio
e vejo que devo retirar o céu.
não o céu azul acima de mim
mas este que roubou o chão
que leva ao "onde vim parar?"
no qual eles insistem em pisar

Do e-livro Água Fria (2017)

23 de out de 2017

OLHOS-PORTA



meus olhos acordaram feito dobradiças
abriram num canto de porta enguiçada.
estes olhos esquecidos de lançar óleo lubrificante
começaram a ver por ouvir ranger a abertura.

me tragam o lubrificante pois não há lágrima!
quem trará aos meus olhos o verniz de ver?
as retinas se soltaram - o pino das dobradiças!
que viço, que líquido, que água pode umedecer?

me tragam um alicate, acabem com o rangido
pois ainda se abrem arranhando, quase ruindo.
sinto meus olhos-porta, estão despencando
quem colocou a ferrugem impedindo de abrir?

espero que não me tragam lubrificante de cegar.
e se - como quem frita pela décima quinta vez -
me trouxerem óleo de cozinha reutilizado pela décima quinta vez?
meus olhos cegarão de vez, eles já estão ruindo.

então, me tragam sabão para esfregar 
e inserir nas entranhas dos olhos. Vão arder de limpar!
às vezes tenho surtos de vida sanitária!
no entanto, não, aqui não se pede sanidade.

e se me trouxerem uma água para além d'água!?
mas a minha vizinha sã me trouxe água sanitária.
os olhos ficarão piores do que acordaram
o barulho ficará ainda mais cego e insuportável

não me tragam mais nada, me deixem emperrado
nas dobradiças dos olhos que me trouxeram.
não deveria ter pedido, tenho a mania de pedir.
triste pedir, pois alimenta o ranger das dobradiças

não me tragam nada, pois já me trouxeram 
o enguiço dos meus olhos antes de acordar.
eu, rangendo, me perdi ao pedir - vejam só -
aquilo que me trouxeram bem antes e longe


Do e-livro Água Fria (2017)

12 de set de 2017

SEM OS PÉS



há muito acordo sem os pés
mas nunca me vi sem eles
mas hoje a manhã ardeu
sequer andei até a porta.

retiraram minhas pernas
como quem extrai ouro.
as veias crescem de novo
como as sementes lentas.

mas ainda não vejo as pernas,
mas logo serão retiradas
e agora meus pés doem
sem os ter nesta manhã.

doem as pernas sem elas
como se ainda as tivesse.
caminho sem caminhar
passo sem ter um passo.

a andança pelas ladeiras
é o cansaço de me levarem.
sem pernas me deixaram
assim acordei nesta manhã.

talvez um dia me devolvam,
sonhei hoje no fim de tarde
- quase noite - com as pernas.
a firmeza da noite começava.

mas ao acordar era manhã
a dor nas pernas ainda existia
sem elas as sentia e as via.
elas me ficam por extração.

Do e-livro Água Fria (2017)

20 de ago de 2017

CRESCE UM BARRACO AQUI


cresce um barraco aqui:
fora de mim em quarto
aqui dentro em colina

é visto como o que se vê:
o barraco cresce de uma tábua
da alma tangível de madeira

e mais: decresce despregado,
é que de queda cresce aqui
e um tijolo se desmantela

será ele do quarto da alma
ou do quarto daquele barraco:
materiais de pedra e além

cresce ainda um prego aqui
e lá caindo em crescente
sustenta e crava o barraco 

Do e-livro Água Fria (2017)

4 de jul de 2017

DESTRABALHAR


deve trabalhar - ouço desde criança.
deve trabalhar todos os dias, oito horas
ou mais tempo na hora extra.
mas extra é o próprio trabalho,
os dias querem me trabalhar
para agora ficar aqui trabalhado.
mas basta destrabalhar para ver que esta vida é hora extra
porque o extra dos dias sempre nos quer trabalhar
para viver no serviço das horas.

poderão pensar que sou vagabundo
mas o que fazer com quem vive em extremos
e só entende duas afirmações:
"trabalho, por isso não sou vagabundo"
e "vagabundeio, por isso não sou trabalhador".

digo que não sou nem um nem outro,
pois ser trabalhador ou vagabundo se assemelham.
não participo do cristianismo de gravatas e trapos
nem da dignidade laborativa de caridade
nem da mendicância invejosa de querer o adoçante alheio
nem das vantagens de liquidações comerciais para dar felicidades liquidadas.

quando destrabalho me despeço do tempo medido
me despeço da riqueza e da pobreza.
me despeço de facilidades
de felicidades e tristezas.
Sou este que destrabalha
porque não fico nem rico nem pobre,
portanto não preciso enriquecer ou roubar.

encerrado na cidade, uma vez ouvi de um homem
que falava de trabalho como obrigação.
mas obrigar ou pedir obrigado é brigar com alguém.
para ele a obrigação abriga
para mim a obrigação extrai briga.
digo briga, pois pergunto: para que e para quem se trabalha?
não fico só em dependências interrogativas quando destrabalho.
me dizem para ter cuidado, pois posso ser preso,
mas na cidade estamos presos às obrigações.
os vagabundos estão presos, porque querem dos trabalhadores.
os trabalhadores estão presos, porque querem o trabalho dos vagabundos.
ricos e pobres estão nesta mesma cidade e se avizinham.
tudo isso tem a aparência de natural
e, ao mesmo tempo, tudo passa como entretenimento.

um dia desse veio um mendigo me pedir
me obrigava a lhe dar uma esmola.
em seguida, um outro me obrigava a comprar, pois dizia que estava a trabalho.
ora veja, mendigo mesmo não obriga a receber esmola.
lhe disse que era um trabalhador vestido de mendigo
e ao outro disse que nenhum trabalho obriga a ninguém comprar.

o destrabalho vive com pouco
para quê ter mais do que necessito?
ou ter além do que posso ter?
me cobrarão cuidado, pois "mente vazia é oficina do diabo"
querem me colocar o diabo para me obrigar
para me fazer pensar que não valho nada.
para eles não valho mesmo,
porque o diabo na minha mente vazia brinca.

agora, atenção, muita atenção, não com o diabo
mas com quem quer te trabalhar o trabalho.
todos os diabos vêm de lá.
querem me preencher de medos, de intimações,
me acham muito vazio.

vivo com pouco e gosto de conversar
e ouvir quem destrabalha.
nos juntamos lá na esquina - não para futilidades.
lá vem minha vizinha, vem sempre muito lenta
teremos muito destrabalho
não precisamos de nada além do que temos.
ela chega e a conversa também segue lenta
ali vamos destrabalhando.

Do e-livro Água Fria (2017)

8 de jun de 2017

VISTA DA CIDADE



os olhos correm em velocidade
móveis seguem, imóveis ficam

os olhos correm vendo os imóveis
mas dentro e fora tudo é paragem

a velocidade imposta e crescente
ao caminho pelos barrancos passamos

esbarrando nos barracos tudo ascende
a terra plana se nivela aos altos do morro

minha mente aos poucos se desmantela
pois falta martelo, nem posso pendurá-la

tudo balança no ar, tudo balança na alma
os prédios trepidam, as árvores caem

os olhos para fora das madeiras são pregos
os braços, madeiras dependuradas ao vento

a luz piscou e a energia faltará em instantes
ah, mas já me falta energia para continuar!

tentei seguir, mas tudo cresce descendendo
em grande velocidade o poema se acabou


Do e-livro Água Fria

1 de mai de 2017

Poema Água Fria



levei um banho de água fria
como se chovesse há séculos,
como a chuva que veio do mar
e deixou um pouco de brasa,
pois a fogueira logo foi levada
e, sem o fogo, apenas abrasou.

o dia estava quente, era solar,
pouco solar, pois a brasa exige 
tempo, mas começava a estalar,
se ouvia e refletia sua centelha.
a lenha ainda seria melhorada,
mas levei um banho de água fria

antes mesmo de se ver acender
a fogueira, voltei à antiga brasa.
brasa que com a água se fez lama.
e no ar o odor de fogueira apagada,
na terra as cinzas viviam fumaça,
e a água obstruía os caminhos.

senti a água fria em dia quente 
o arcaico banho apagou a brasa.
dela devem ter feito um brasão
também arcaico. Foi quando vi
a fria água escorrendo no corpo:
era medrosa, presa em conserva

se guardou e ainda se guarda
esta água num braseiro úmido.
mantida com gelos e gosmas
ela inflama por não ter chama,
sua brasa ao chamar se apaga
para dar um banho de água fria.

Do e-livro Água Fria (2017)

29 de mar de 2017

ÁGUA FRIA: TERCEIRO E-LIVRO DE POESIA DE JEFFERSON BESSA



TERCEIRO E-LIVRO DE POESIA DE JEFFERSON BESSA

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