sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Encontros


foto encontrada na net sem referência

nada origina um movimento

nada por si se move

nada o outro move sozinho

nada se move sem mover

nada sem mover é movido.

sem motores, sem ação

inércia ou lugar

nada vive em solidão.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Buscar


hoje ficarei em casa

de antemão sei que nada vou achar - não sairei

até iria se não buscasse nada, mas hoje insisto em procurar - como quando perco algo em casa

se tivesse perdido alguma coisa, não hesitaria a sair, é certo!

ainda que eu não encontrasse e provavelmente não encontraria. mas saberia o que buscar

pensei em inventar algo para procurar. hoje, contudo, não posso

então estou aqui e escrevo isto – e com isto escrito não busco nada

afirmo: ao terminar de ler nada encontrará. bastaria ler sem esperar nada; assim como eu escrevo isto

nem penso mais no que deve ter de agradável ou desagradável em não buscar

começo a curtir isto que não leva ao fim de nada

então fique certo de que não há nada nos pés do que se lê
no fim dele não há saída, porque não sairia por nenhuma porta que tivesse entrado

não procuro saída

surge agora o que não busquei - não é contemplação, nem epifania
nem vou buscar saber o que é!

no entanto, eclode a forma de mim e por ela saio pleno.
basta ler:
é só não sair para conseguir sair, por isso agora sairei
vou à rua

(Jefferson Bessa)

* figura que representa o ajna

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Comentário de Rogel Samuel sobre o verso-corpo de Jefferson Bessa

Escreveu Rogel Samuel:


Jefferson Bessa escreveu um dos seus melhores poemas, o mais erótico, o mais interessante.

Na realidade ali vejo, ali leio um ato copular, excelente e sensual. A poesia erótica fina, que tem sua própria estética, como escreveu o autor: "Penso que os melhores são os que fazem do erotismo uma própria estética...pensar na constituição de um verso com o erotismo que há no corpo humano e, por outro lado, o verso que se torna erótico por ser também um corpo ao lado de outro corpo - o corpo humano".


Nada melhor, nada mais sagrado do que a expressão do corpo humano, com seus músculos, com seus braços, ombros e mãos, e mesmo o "verso vigoroso". Difícil é esta arte de expressar a erótica da arte, ou seja, a estética erótica.

São poucos os escritores de eros, poucos que sabem (de sabor e de saber) dar conta do corpo de prazer.

Os antigos gregos o sabiam. Os grandes iogues tântricos o praticavam. Nossa civilização foi perdendo e desgastando e corrompendo esta arte fina.


verso-corpo

Jefferson Bessa

no vão do braço
no vão dos músculos
o verso sobe e se deita

na contração natural se esvai,
na linha de fibra cordial
o verso desce e desliza

ombros e mãos se elevam
tudo recebe assim afável
a cavidade crescente cortês

o corpo se abre como assento
nele aqui deixarei se sentar
o verso ofertado e mais vigoroso

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

verso-corpo

Fotografia de Jefferson Bessa

no vão do braço
no vão dos músculos
o verso sobe e se deita

na contração natural se esvai,
na linha de fibra cordial
o verso desce e desliza

ombros e mãos se elevam
tudo recebe assim afável
a cavidade crescente cortês

o corpo se abre como assento
nele aqui deixarei se sentar
o verso ofertado e mais vigoroso


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

palavra grão

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nu


deslizo a nudez de muitos corpos
desenrolo olhares na audição do traço braçal
e ando por muitas pernas
delineando todas as partes com o dedo - como quando se pinta cores

me agarro em muitas mãos e as passaria no corpo
como as águas descem
como um escultor por mil vezes sentindo a pedra

se esqueça de mim sem pose
quem vê é o corpo do meu olho rolando como pedras
submersas ... soltas
neste rio



Fotografia de David Myers.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Chuva

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Atraso

Sempre que tento
Escrever dia
Chega
A noite

Sempre um verso
Já é
outro
Quando relido

Diversas chuvas
Dentre paredes
Ouvi
Sem chuva

Pelas distâncias
Tudo diz
Vagarosamente

É quando deixo
Um atraso ficar
Para o que passa

domingo, 27 de setembro de 2009

Versos de Agora



num dia desses em que tudo é simples

disseram-me sobre as musas

pensei então que me poderiam dar um presente

- e me saiu um sorriso no canto da boca –

então quis abrir o esquecimento.



e assim me fizeram lembrar do que esqueço

contudo aqui não tenho o que tirar da memória

abro então o presente

e me chegam versos de agora

esses que têm os passos nas palavras

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Duna

fotografia de Edward Weston - Black Dunes
1936


Deste pouco de tinta
Espalhada na folha
Se ergue sobre linhas
Arqueada de corpo
Esta imensa duna.
Aqui vai se compondo
Em lento movimento

De letra a letra
Abrindo vazios
Assim ocupados
Por verso contínuo
De fragilidade
Que se firma sempre
Em intermitência.

Por entre grãos
A duna sobe.
Palavra reta
Na superfície
Das várias curvas
Então alinhadas
No cruzamento

Vertical
No horizonte
Curvilíneo,
Percorrendo
Lá e aqui
Nos declives.
Não há jeito:

Se move
Agora
A duna
Escrita
Aqui.
contudo
se vê:

é

es
va
in
do
se