8 de jun de 2017

VISTA DA CIDADE



os olhos correm em velocidade
móveis seguem, imóveis ficam

os olhos correm vendo os imóveis
mas dentro e fora tudo é paragem

a velocidade imposta e crescente
ao caminho pelos barrancos passamos

esbarrando nos barracos tudo ascende
a terra plana se nivela aos altos do morro

minha mente aos poucos se desmantela
pois falta martelo, nem posso pendurá-la

tudo balança no ar, tudo balança na alma
os prédios trepidam, as árvores caem

os olhos para fora das madeiras são pregos
os braços, madeiras dependuradas ao vento

a luz piscou e a energia faltará em instantes
ah, mas já me falta energia para continuar!

tentei seguir, mas tudo cresce descendendo
em grande velocidade o poema se acabou


Do e-livro Água Fria

1 de mai de 2017

Poema Água Fria



levei um banho de água fria
como se chovesse há séculos,
como a chuva que veio do mar
e deixou um pouco de brasa,
pois a fogueira logo foi levada
e, sem o fogo, apenas abrasou.

o dia estava quente, era solar,
pouco solar, pois a brasa exige 
tempo, mas começava a estalar,
se ouvia e refletia sua centelha.
a lenha ainda seria melhorada,
mas levei um banho de água fria

antes mesmo de se ver acender
a fogueira, voltei à antiga brasa.
brasa que com a água se fez lama.
e no ar o odor de fogueira apagada,
na terra as cinzas viviam fumaça,
e a água obstruía os caminhos.

senti a água fria em dia quente 
o arcaico banho apagou a brasa.
dela devem ter feito um brasão
também arcaico. Foi quando vi
a fria água escorrendo no corpo:
era medrosa, presa em conserva

se guardou e ainda se guarda
esta água num braseiro úmido.
mantida com gelos e gosmas
ela inflama por não ter chama,
sua brasa ao chamar se apaga
para dar um banho de água fria.

Do e-livro Água Fria (2017)

29 de mar de 2017

ÁGUA FRIA: TERCEIRO E-LIVRO DE POESIA DE JEFFERSON BESSA



TERCEIRO E-LIVRO DE POESIA DE JEFFERSON BESSA

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COM A PUBLICAÇÃO ABERTA, SE QUISER LER EM TELA CHEIA CLIQUE EM [  ] AO LADO DO +. 
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3 de mar de 2017

nudez rasa


ficar na cama com o calor
e ter o corpo sem envergadura

arrastar todo meu rosto ao suor
na nudez rasa em seu desenho

fluir sempre devagar por entre braços
venerados na linha reta das curvas

estar alinhado como verso
entrelaçado em pernas volumosas

olhar a tarde em névoa quente
deixar-me escorrer por mãos

atentar ao corpo em pouco raciocínio
como simples calor a pele sente

Do livro Chão da Pele (2015)

24 de jan de 2017

SALDO ANUAL

  
sim, a economia do país cresce 
mas nas contas que fizemos 
grande parte vem das maravilhas, 
das ilhas, das filhas, das meninas. 
mas também dos meninos, dos físicos, 
dos ares afrodisíacos. 
sim, nas contas que fizemos 
o afro que se lê em afrodisíaco 
provém das rendas de Afrodite. 
não, no balanço dessas contas 
tivemos de fazer a retificação: 
o afro somado ao tempo 
nos dá o resultado de que afro 
deve ser calculado com africano, 
assim, o saldo se afasta dos gregos. 
para chegarmos ao verdadeiro saldo: 
temos que somar o gringo  
mais o povo que para ele vem rindo 
mais as correntes que nos prendem. 
sim, a economia do país cresce.

2012

14 de dez de 2016

Sobre o silêncio, dizia o místico


- Dizer menos para entender mais,
afirmava o místico, dizendo ainda:
- Silêncio deviam fazer todos os homens
O divino em nós se transforma
Quando a boca se cala.
contudo a voz do poeta soou
e disse a ele que já queria seguir:
- Não há silêncio, a não ser que tenha se esquecido
De que se fala como quem ouve
E se ouve e se fala como quem canta.
lá foi ele e o poeta pensou consigo mesmo:
_ Coisa mais louca é viver no deserto da palavra
pensando que fora Dela está o oásis divino.

29 de nov de 2016

ODE AOS PÉS


entre os pés e a terra se caminha
esqueça, portanto, à porta de casa
o cadarço, os sapatos, as meias
caso não queira ser levado sem saber
a caminhos que nunca se sentiu

deixe cair por terra os pensamentos
que ultrapassam as veredas dos pés.
fique descalço como quem fica nu
não acredite nos passos posteriores
nem nos anteriores aos seus pés

todos se cansam rápido do caminho
que fora do corpo dizem existir.
muito se disse sobre as avenidas
no entanto, à medida que se aprende
detestável é o percurso que se sabe

não se lembre dos passos além
não se deixe levar pelos rastros
num dia vão verá que a passagem
terá sido aquela que nunca pisou,
que nunca esteve aos seus pés 

26 de out de 2016

DIZENDO COMO UMA CRIANÇA



um homem me disse: o silêncio
é como experimentar a morte.
ouvi a assertiva feito uma criança.
sem qualquer dificuldade afirmei:
por isso nunca se sabe do silêncio
- a morte alguma vez foi sentida?
o que não se sente não é nada

o silêncio, nunca o sentimos
muito do que se acredita não existe:
é como pensar que se sente morto.
isso tudo ficou claro para mim
e o homem adulto, previsível, disse
você parece bastante doido.
respondi: sou doido feito criança



28 de set de 2016

EM CADA CANTO HÁ UMA LUA



I
em cada canto há uma lua
que surge e na qual habito,
como quem vai para longe
e faz da prata a sua luz.
quando me canso da terra
me despeço de todo mundo
sem dizer, gritar, interrogar

quando me canso da terra
vou embora para a lua:
esta que flutua nos cantos
vista na altura dos olhos
passante no meio da rua

II

há coisas que são lua.
mas nunca sei onde ela está
no leste ou no oeste
na esquina ou no quarto.
sim, cintila muito antiga
mas nunca sei onde está:
de repente as luas caem
feito pessoas que são lua:
chegam, não me lembram
deitam em mim e desço
mas nunca sei onde está

III

quando me canso da terra
vou embora para a lua:
mas não vou para ficar
(quem fica desgosta)
então, volto no passo de ir
e quando novamente vou
volto no passo de não ter pisado 
em nenhuma outra terra
senão nesta
nesta mesma em que vivo lua

23 de ago de 2016

FUNGOS



os fungos se fundaram de vez,
se fundiram aos outros fundos
e agora se vive de fungar os dias
ruidosos aos profundos ouvidos

os fungos são muito fundos:
nas entranhas, nos recursos
nas contas furtadas
na carência das palavras
nos papéis dos burocratas
nas histórias dos triunfos
nos arcos triunfais fungados

aqui se fungam os tempos, as horas
e na unha o fungo se edifica
pois se funde ao resfriado
do ser e das almas vitoriosas


(um lenço, por favor, para assoar!
e para a unha infectada, por favor,
pasta de erva ou esmalte para sair desta furna.

que praga este fungo enfurnado em tudo!
fungo sem data! 
quem se lembra de onde veio?
depressa, tragam fungicida!

a vizinha me trouxe um remédio.
o fungo desapareceu por uns dias,
mas do que adiantou se provocou irritação?

um lenço, por favor, para assoar! 
e para a unha infectada, por favor, 
um enlevo esmaltado para esta mentalidade daninha)

Do livro Água Fria (em elaboração)

17 de jul de 2016

VOLTAR



voltar a este quarto
às cortinas
à janela
às toalhas
à cama
voltar ao espelho
voltar como sempre
ao mesmo deste lugar

foi nesta hora
que quase me deixei
ser o mesmo
com os objetos do quarto.
por um momento
quase deixei o beijo
como um passado
e me lancei a dormir
o sono de olhares iguais.
por pouco não me estendi
sobre a cama como roupas
penduradas em cabide.
mas foram essas roupas
as últimas coisas iguais

agora volto
como se estivesse indo
porque tua nudez,
tua pele, teus beijos,
teus dedos e abraços
o moreno do odor de teus braços
me fizeram voltar

como se nada fosse antes

Jefferson Bessa
Do livro Chão da pele (2015) 

18 de jun de 2016

ARARA OU ARAGUAIA

A Rogel Samuel

quando a saliva resseca 
com o sal da água do mar que escama,
a audição afasta a náusea,
pois rios e voos ecoam de lá
descem e ressoam entre pedras.
asas e águas perpassam 
e falam arara ou araguaia.
o úmido na língua se deixa
aguando em doce de rio
engrandece plumas que reluzem 

elas deságuam na boca 
escorrem e não engasgam
passam ao vento como pôr do sol de janeiro
e brilham vermelho de lua entardecendo

aguadas araras e araguaias -
há um atraso na língua quando as diz,
pois tardam em suas tardes
amanhecem tardemente em vermelha arara
anoitecem azulantes na corrente da araguaia