um dia se deitará ainda
manso sem querer pensar
um dia pousará no instante
como um nada que resiste
sobre o pleno de meu corpo
e sozinho chegará
assim calmo, leve e brando
assim fácil, todo e logo
vamos juntos esquecer
juntos levianamente
um dia se deitará ainda
manso sem querer pensar:
um vento qualquer no ar
e irá pousar sobre mim
sem saber como e por quê
10 de jun. de 2011
UM DIA SE DEITARÁ AINDA
30 de mai. de 2011
ontem a chuva veio de trás
ontem a chuva veio de trás
a frente se fez diferentemente úmida
do leste uma luz diversa descia
nada similar aos outros fins-de-tarde
na mistura de um laranja-prata
iluminou casas, ruas, antenas
não havia uma pessoa
todo o resto se deixava passar pela luz
arrastava-se ao ocre da terra
no tempo do verde-azul
visto nos montes ao longe
não era um crepúsculo
não era tarde, nem manhã.
da chuva vinda de trás
a cor desconhecida
por instantes se mostrou
outra coisa – sem nome
não era alguma coisa
era cor – era o que nunca mais se verá
só conheço pelo que já disse
a luz veio do leste
depois da chuva vinda de trás.
não havia sequer uma pessoa
sem definição acontecia
brilhava na visão
uma cor que nunca mais se verá
15 de mai. de 2011
que o sol possui tarefas diárias?
que o sol possui tarefas diárias?
não poderia acreditar nessa ideia
sei bem que eu possuo encargos
créditos e carnês e pagamentos
minhas tarefas visam a este fim
mas que fim teriam as tarefas do sol?
diriam a tarefa de semear e iluminar
mas ele mesmo não sabe o que faz
o sol não possui nenhuma tarefa.
se um dia o sol se apagar de vez
não será por falta de pagamento,
por falta de emprego ou dinheiro
se nós temos a nossa empreitada
o sol nada tem a ver com isso
se um dia o sol se apagar de vez
não será por rescisão de contrato
nem pensará no prejuízo humano.
deixe-o então ao largo deste fardo
melhor esquecermos e como está
sentirmos a luz, sermos amarelos
alaranjarmos nos fins-de-tarde
com ele nos apagarmos à noite
no verão termos a pele morena
suarmos azul, rosa e corarmos
26 de abr. de 2011
O SAL DO CORPO
vagarosamente
    seguir
    pelo estreito
      das fendas,
      dos braços,
        olhos,
        orelhas
banhar
        o pescoço
        e
descer
    ao dorso
      num risco leve
        de só ser
      úmido
esquecer-se
        no gosto
         de ser
aos poucos secar
  e evaporar
    ao dedo
  de teus
pés
passar pelo teu corpo
como uma
    derradeira
      gota
       d’
     água
13 de abr. de 2011
PÔR
ver como o sol no fim da tarde
numa variação de cores tão intensa
que piscar é se deixar em últimos raios
no entre das brechas
de uma casa, de um prédio
de uma pessoa e outra
dos homens que passam andar por entre o vão das pernas
do salto alto da mulher atravessar feito um pouco de ar
(podem pensar que neste modo de olhar
neste modo de sentar existe alguma tristeza.
o que fazer se esse instante é o de se pôr
e esquecer do que em nós também faz se pôr)
do extremo duma ampla avenida
se pode ver melhor o pôr
escorrendo na língua dos raios
entre às cinco e seis da tarde
no fragmento das longas sombras
o sol, a luz, as pessoas
todos assim se esfregam ao rés do chão
*fotografia sem crédito encontrada na net
27 de mar. de 2011
SOBRE A NOSSA MESA
fitavam sentadas ao redor
juntos sobre a mesa ficávamos
mas ainda agora os pés balançam
vejo que tremem com o peso
arrastam-se com os beijos
e se lançam no curso da nossa água
nada mais reveste esta sala
a mesa se faz para deitar
de bandeja lançamos à fartura
assim se deitam corpos em prazer
15 de mar. de 2011
ESTE SERÁ MEU CUMPRIMENTO
dinheiro tenho pouco
nem uma pessoa influente de poder conheço
não levarei ninguém a qualquer promoção
portanto, não leia este verso
este poema como um meio,
por ele – que sou eu –
não chegará a nenhum futuro brilhante
nem a ocupar um cargo de bom salário
ou daqueles de excelentes aparências.
não tenho nem como trocar favores
não tenho nada que lhe possa interessar
se for por isso nem mesmo um minuto
vale perder comigo.
não precisa de discrição,
afasta-se rápido
finja em qualquer lugar que passo despercebido.
muitos conhecidos pensam em me querer
- no mínimo do que tenho.
mas não tenho nada, nem o mínimo
nem mesmo um verso rimado
não tenho o que oferecer
pode pensar que me ver
é avistar um rosto de dia de semana
um rosto de olhar cansado o trajeto de uma terça-feira
sim, sou um dia de semana arrastado
sem uma ninharia.
melhor, então, é me deixar jogado num canto
prometo que a partir de hoje
logo que alguém falar comigo
antes de todas as coisas falarei assim direto
não tenho nada – será meu cumprimento
28 de fev. de 2011
como seguir apenas em um barco?
baixos e altos passam os desejos
pelo tamanho de corpos que vejo.
por entre tantas pernas e braços
como seguir apenas em um barco?
sempre aos olhos andam os traços
em muitos sinais morenos, espessos.
dentre as várias pessoas na rua
como poder idealizar uma?
só percebo em você a roupa que entra
se a hora do dia esfria ou esquenta.
mas sempre se desnudam aos olhos
nossos corpos fáceis que descem lisos.
por que todos os dias as pessoas
não se levam a sonhar em todas?
***
O poema de Rogel Samuel para Jefferson Bessa:
porque a beleza estáno imaginar
a imaginação é minha
dentro de mim
o que está fora é uma sombra
a sombra de uma sombra
como na caverna de platão
somos sonhos
os corpos passeiam pelos sonhos
pelo que somos
a lembrar
14 de fev. de 2011
um silêncio de furto

ouvi que os gatos são encantados pelo silêncio
disso não se tem certeza
quem já os viu encantados?
pisam o chão tão indiferentes
mas um silêncio encantado há por trás
de quem anda em passos de se esconder
de quem quer descobrir
roubar a voz das coisas
são esses investigadores do mundo
chegam sorrateiramente pelas costas
desejam conhecer todos os segredos
querem encontrar os meus lados
voar sobre todas as terras
com a fala da minha voz
há neles um silêncio de furto
que poderia me fazer pensar que ouço a mim mesmo
fotografia sem crédito encontrada na net
31 de jan. de 2011
até uma palavra se escrever
até uma palavra se escrever
inúmeras se movem em sentidos
se espalham em críveis significados
balançam falantes, falantes
sobre a balança do poema
mas inevitável no instante
que sacode e oscila
cai a palavra que não poderia ser outra
mas aquela única
que canta e dança feito pluma
A amiga Amélia Pais - do blog Ao longe os barcos de flores - divulgou um poema de minha autoria no blog. Para quem quiser visitar clique aqui.
17 de jan. de 2011
O HOMEM E A PASTA PRETA
um homem se sentou à mesa da frente
mais um dentre tantos outros:
com a pasta preta e sentado
não dá conta de que o olho
talvez tenha me olhado para se certificar
como de praxe faz em meio à sua função
de examinar documentos que redige
não seria exagerado, mas de relance pude ver
o modo como olha é o mesmo de quem olha
um certificado, dá por certo e carimba.
existe, sim, um carimbo nos olhos dele
segura o copo com quem agarra uma caneta
o leva à boca no jeito de passar e repassar papéis
e bebe tão forte como se na língua tivesse uma norma
II
a pasta preta o acompanha intimamente
com ela sobre as pernas e por entre os braços
a coloca tão fixa, numa posição tão certa
como uma filha carece de mãos paternas
para se erguer e, suspensa, ficar segura.
me observou por um instante - talvez desconfiado
de que meu rosto fosse um falso documento.
no entanto, eu não o olhava mais.
me restaram ali o chão e um pensamento.
quando me dei p’ra fora os vi seguindo:
o homem e a pasta preta.
andava carregando a alça num balanço de executar.
segurava como se estivesse voltando de um parque
voltando de mãos dadas à sua filha.
lá vão eles - tão dependentes – um dentro do outro
lacrados e perdidos num mesmo passo
O poema "O homem e a pasta preta" foi divulgado no blog "A vida é uma magnólia". Desde já agradeço pela presença no blog. Para quem quiser visitar, clique aqui.
6 de jan. de 2011
UM CORPO VIVO
as cores se abrem do corpo
aberto para mim, para quem o vê.
de súbito, eternamente acordo
à verdade de quem deve abrir-se
não sou eu, nem nós, nem ninguém
porque se quero desfolhar alguém
vejo qualquer coisa inexistente
nem como rosa, nem como cravo
hoje nada arrancarei de sua pele
não perderei, nem perderá um pelo.
sentará frente a mim de corpo nu
e aos meus olhos, sim, libertará
a minha visão já esquecida de mim
para só ver e ver um corpo vivo