Existem excelentes poemas que são leituras a partir de textos clássicos. Acredito que nessa relação direta não há nenhuma angústia, nenhum combate de leituras, nenhuma oposição. Ao contrário, percebo, ainda quando o poeta se distancia inteiramente do poema lido, uma grande harmonia. No que se pode identificar destruição ou guerra vejo somente o artista tentando criar no seu tempo, na sua forma, pois aquilo que se tornou modelo a ele não se adapta mais.
A referência a um outro texto por si só já apresenta o acolhimento ao clássico. Mas que nada tem a ver com submissão ou superação (esta ação se ajusta às guerras). Nas artes esse respeito é harmônico, pois se aprende que cada diálogo simplesmente se faz porque surge uma criação - surgindo também um gesto que se eleva. Mas tal momento somente acontece quando o artista se conhece desconhecendo-se. Trabalho dificílimo.
Uma grande obra, nesse caso, acontece pela grande harmonia que um artista que se propõe a criar a si próprio. Essa harmonia se constitui também por um grande diálogo que não se opõe à tradição, mas que se harmoniza com os clássicos. Com isso se pode verificar que uma obra se constrói não pela oposição, mas por um acolhimento do outro.
Ler o outro é se permitir a aprender a conhecer por desconhecer a si próprio. É um caminho que precisamos atravessar atentamente. Sendo assim, não é um confronto que restringiria o outro a um elemento opositivo. O que há de criação se perde caso se dê valor ao que há de contrários. Certamente um jogo dialético limitado e violento. Diante de um traço harmônico de leitura se vê a tentativa de um poema fazer jus a outro. Um poema que se volta para um clássico se torna grande por um traço que ressalto no momento: a leitura harmônica que faz criar um outro seu. Na verdade, a leitura é esse grande esforço por alcançar.
Jefferson Bessa