10 de fev. de 2020

Alcântara (Maranhão): poema



Foto de Jefferson Bessa

A vida cresce e definha em Alcântara
Ao passar plantas parecem esconder
Pedras parecem brotar nos cantos.
Os vazados das portas se enchem
De fora e de dentro, todos se abrem

A vida sustenta a corrosão e atravessa
Casas sem tetos, escadas não concluem.
Pelas ruas velhos alicerces surgem
Ao lado de flores brancas e murchas:
O sol e o tempo esmaecem Alcântara
E fazem erguer do chão tempos ao céu

Ela vaza expectativas e decadências:
Decai à espera pelas riquezas
Se levanta no concreto de ruínas
Decai à espera pela realeza
Se levanta no presente do passado
Decai à espera pelo convento
Se levanta no abandono das ambições
Decai à espera pelos que desistiram
Se levanta no pelourinho que ainda castiga
Decai à espera pelos escravos na Amargura
Se levanta na resistência de quilombos
Decai à espera pelos que lá deixaram 
Na portada seu símbolo
Se levanta à espera pela festa do Divino
E decai na dureza das casas coloniais

A noite de Alcântara emite ruínas
Nas luzes baixas de seus lampiões:
Vozes, ecos, desmontes, quietudes.
Ao amanhecer, ela se ergue e decai
Voltada para a Ilha do Livramento

2020

6 de jan. de 2020

Francisco Brennand, ceramista e artista plástico, morre aos 92 anos no Recife


O artista plástico e ceramista Francisco Brennand morreu em dezembro de 2019. Postarei um poema escrito em 2015, logo depois da visita ao museu-cidade na Várzea, bairro de Recife. Não o conheci pessoalmente na ocasião. Porém, assim que escrevi o poema, resolvi enviar-lhe por e-mail. Muito atencioso, respondeu alguns dias depois. A cidade-mundo de Brennand, certamente, desperta, acorda, enfim ERGUE quem a ela chega. Obras de coragem, obras de mão e fogo, obras que se levantam entre terra e fagulha ao mais elevado. 

A Francisco Brennand *


o fogo se sente ao chegar
pois à vista tudo cresce
mas a plenitude de arder
como sempre está por vir
no forno queima ao entrar.

forno de fogo invisível
escuro claramente feito
por isso também visível:
faíscas de ruínas refeitas.

pela escuridão das paredes
se entra em uma caverna
- fornada - e nela se queima
pois tem paredes de carne
negra vermelha cerâmica.

quem não entra em vapor
na noite desta iluminação
mais luz não poderá ver.
quem sente o intenso calor
esquece a luz do visto antes
para acender o ver depois:
seu escuro o corpo clareia
sente-se oleiro: se faz no feito
pois refeito - feitiço do fogo.

na epiderme fagulham argilas
em água, em ar de conversão.
brasando entre pele e visão
quem entra se desfaz refaz
feito jarro de santuário viver
pois se obra do direto fogo.

no hálito de magia fagulha
acende-se num fio de fogo:
do escuro ruínas se erguem
das cinzas o barro se refaz
e sair se refaz feito entrar:
o que se abre na escuridão
refaz na alma o vir à luz
no oval dos arcos do céu.

mas a plenitude de arder
já que sempre está por vir
queimará ao sair do forno:
o que obra nos faz ovular
pois transfunde todo o ser.


* Na cidadela de barro do artista, existe um forno que foi mantido como parte do museu.

29 de mai. de 2019

GOLPE




bem naquela manhã no rosto desprotegido 
veio um golpe de ar e acertou em cheio
o corpo se virou tão rápido, estremeceu
a cabeça e os passos se soltaram sem direção.
o golpe me empurrou para uma estátua
o vento cessou, no alto vi patas de cavalo,
saltavam ao vento com força e precisão.


o golpe de ar rasante aproximou o olhar
àquele galope elevado de bronze e granito
e mais acima galgava entre dedos um chapéu.
não, era um quepe se erguendo ao céu.
golpeado de arranhões nas pernas e braços
já sabia que ali se via um monumento,
era Deodoro sobre seu cavalo galopeado.


um homem se aproximou para saber do ocorrido,
quando me levantei sentia ardência nos joelhos
e astúcia no olhar de ajuda que visa aos bolsos.
não o deixei dar mais um golpe, depois de tantos.


anteontem não dormi bem em Noite de Agonia.
hoje talvez fique resfriado pelo golpe de ar.
amanhã ainda estarei com sangue no corpo
como se um cavalo tivesse passado por mim.
depois de amanhã poderei estar chumbado
por um golpe qualquer que se diz heroico.

26 de mar. de 2019

LÚCIDO



aqui luzia luz de fogueira
lá fora tem festa e fogo
aqui brotam cores e bandeiras
lá fora estalavam serpentinas

hoje perguntei para Luíza
que festa luz lá fora?
mas ela disse que Luzia

mas que festa luz lá fora?
agora seu nome é Lucílio

que música se faz lá fora?
eram vozes de Lúcia e Lúcio
dizem de fogueira e outros

era, então, festa de São João
ou fevereiro de Carnaval?

aqui luzia luz de fogueira
lá fora tem festa e fogo
aqui brotam cores e bandeiras
lá fora estalavam serpentinas

perguntei para o Luciano
agora me chamo Luciana
que festa luz lá fora?
e os nomes começavam
e cresciam como festa

a festa entrada fora crescia
aqui vozes diziam ele luz 
mas agora diziam ela luz
indo e vindo, festa e fogo

era, então, festa de São João
ou fevereiro de Carnaval?

27 de jan. de 2019

ENQUANTO ANDAVA NA RUA

Neste mês de janeiro de 2019, esta página completa 10 anos. Para relembrar, postarei o primeiro poema divulgado aqui.

hoje tropecei
enquanto andava na rua
tombei, quebrei o joelho.
mas de que matéria é essa pedra?
não é mineral, certo!
sobre este chão, caído
ainda resisto
virado, me viro a olhá-la
e é de um azul-flutuante
semitransparente
e fico com esses olhos que vêem
com as gotas de sangue jorradas no chão.
se a matéria da pedra for eu mesmo?
se for do efeito da dor
ou de uma coloração alquímica?
de sensações bombardeadas
ou de manifestação divina?
ou pedra somente vista?
desejada?
ou pensada?
De quantas matérias se compõe uma pedra?

Para tanto basta ser uma pedra interrogada!

10 de nov. de 2018

GUARDA-CHUVA

quando abro guarda-chuva
não me guardo,
me abro e guardo gotas:
molhado feito o homem
que, antes de inventar
e abrir o guarda-chuva,
esperava, só, a chuva fina
e sob a árvore guardava
gotas das finas águas

por isso nada tão estranho
quando se ouve vou abrir
agora meu guarda-chuva,
porque há, sim, um cismar 
de alguém que se guardou-
da-chuva, talvez sem se dar 
conta de que vive um guarda-
da-chuva

mas quem guarda a chuva
se abre às gotas se esvaindo,
goteja junto dos telhados
desce fluente dos arames
se senta como uma poça
se deixa aguar de chuva fina
se deixa molhar, se enxaguar

2014

19 de set. de 2018

DESATAR-NÓS


Desatar o nó na garganta
Retirar fio a fio devagar.
Engasgar e desfiar o nó
Simples, duplo, cego,
Nó direito, nó em oito, nó de sapato.
Até se nós fizermos juntos nós na garganta 
É melhor desatar o Mesmo.
Muitos fios se envolvem em nós
Como pedra fundamental em durezas 
Que por costume não sentimos mais os apertos.
Atenção aos nós para desatar-nós:
Quando caroço intruso e embargador de voz
Que se quer entrar e nada se deixa engolir.

(Foi ontem, um nó se fez, a garganta quase se fechou 
E uma irritação começou, continha um engasgo.
Quase caído no aperto, quase deixei dar um nó,
Eram fios sentidos como formigas na garganta.
Pensei que estavam dormentes,
Mas saíram lentamente como saem da terra.
Foi quando de repente surgiu uma vontade de sorrir
Do aperto dos laços, dos refluxos, das palpitações.
Pensei que fosse sair gargalhando
Então sorri fio a fio)

22 de jun. de 2018

CLANDESTINIDADE

Por mais que não me olhe
Imagino que imagina quando olha,
Mesmo que a cidade nos estreite
Na sua mesquinhez e no seu espaço
No entulho de objetos e pessoas.
Por mais que não me olhe
Imagino que imagina quando olha,
Mesmo que só pense em sua aparência
E a vida se espalhe cheia de cotidiano,
De exageros e besteiras.


Pode imaginar muito pouco,
Mas se imagino em demasia
Vejo o que imagina em você,
Me imagino assim e me deito
Naquilo que invento e entro
Às escondidas em amplitude.

Não acredito no que sou
Nem naquilo que você julga ser,
Pois deixamos de ser quando vistos.
Não importa a largura e a altura
De como nos imaginamos,
Mas uma coisa nos destina:
Ocultamente encostamos um no outro.


23 de abr. de 2018

OS OLHOS COMEÇARAM A PENAR



às vezes as coisas no homem
dão assim para penar.
e na pena de pensar
e de pensar penando
os olhos começaram a penar
como uma vizinha
um mendigo, uma montanha
como pena esta cidade.
de tanto olhar acabei nesta pena
com um sorriso no canto da boca
(se fosse em branco
como é o branco
não teria pena daquela folha.
mas numa folha impressa
cada pena é a letra da folha.
se fosse folha de poema
mas é folha de jornal.
se fosse folha de árvore
jamais teria pena
mas essa pena é quase
quase uma pena de ave
que na doença perdeu as penas)
às vezes as coisas no homem
dão assim para penar.
como aquele que um dia
esqueceu o leve da pena do pássaro
para dar à pena da composição
o seu grande espírito
que, arrebatado, sentiu dor
e deu à pena a forma de bico
se viu feito um pássaro
mas, sem voo, escreveu
a doença do sentido pena

Do livro Água Fria (2017)

20 de fev. de 2018

VIAGENS ENCALHADAS



Navego ainda em um navio
Que nunca saiu do lugar.
Ouve-se o ruído de cordas
Antigas ou novas e paradas.

Pensa sempre que está além
Desse embaraço. Pode ouvir
Ao largo as vozes de viagens?
Sorrisos, resíduos e vazios.

Que distante volta me provoca!
Amor, não venha com arrogâncias.
Bom seria se viajasse ao lado
De tudo que não saísse do lugar.

Mas pelo visto vai recusar,
Seu olhar sem saber se repete:
Acha melhor ficar encalhado
Em outro país ou na esquina.

2017

7 de jan. de 2018

INSTANTE


na hora do fastio
de pouco dia
de pouco ar
de hora ou segundo
de muita ou nenhuma
poesia
de falta ou de muita
palavra

sem poema
sem pensamento
sem linguagem
um cão se deita
deixe o mundo passar

seja dia ou noite
quarto ou varanda
seja no meio do mundo
no meio da rua
sentado a uma cadeira
uma mosca passa
deixe tudo estar

no opaco, no claro
deixe o mundo passar
se deitar

14 de nov. de 2017

ONDE FOI QUE EU VIM PARAR?


onde foi que eu vim parar?
me largaram nesta terra
nesta em que só se tem
pés e passos que saem
para estar em outra terra

nem se vê simples o solo
pois antes do chão se vê
o céu. Mas deste nada brota,
nada rebenta, nada rasga
e mantiveram os pés no céu

deste dia pra cá se perdeu
o azul, o marrom, o lilás.
por isso aqui me pergunto
onde foi que eu vim parar?
nesta terra sem terra alguma
neste céu que é outra coisa

desses olhares à distância
ao meu redor me cerquei
me prendi e aqui parei.
de tanto ouvir ao longe
fico e imagino outra terra
cansado do que não existe

dizem que me aborreço
desta terra, de estar aqui.
nada disso, nada disso!
esgotado de ter que sair
dela - disto estou cansado -
de olhos que olham pra lá

às vezes me põem algemas
estas de rejeição e ojeriza
e fico em linhas cáusticas.
sem dar por isso me deixo
às vezes ir para esta noite
pobre, cheia de sono pesado

daí olho para o chão e sorrio
e vejo que devo retirar o céu.
não o céu azul acima de mim
mas este que roubou o chão
que leva ao "onde vim parar?"
no qual eles insistem em pisar

Do e-livro Água Fria (2017)