15 de mai. de 2011

que o sol possui tarefas diárias?



que o sol possui tarefas diárias?
não poderia acreditar nessa ideia
sei bem que eu possuo encargos
créditos e carnês e pagamentos
minhas tarefas visam a este fim
mas que fim teriam as tarefas do sol?

diriam a tarefa de semear e iluminar
mas ele mesmo não sabe o que faz
o sol não possui nenhuma tarefa.
se um dia o sol se apagar de vez
não será por falta de pagamento,
por falta de emprego ou dinheiro

se nós temos a nossa empreitada
o sol nada tem a ver com isso
se um dia o sol se apagar de vez
não será por rescisão de contrato
nem pensará no prejuízo humano.
deixe-o então ao largo deste fardo

melhor esquecermos e como está
sentirmos a luz, sermos amarelos
alaranjarmos nos fins-de-tarde
com ele nos apagarmos à noite
no verão termos a pele morena
suarmos azul, rosa e corarmos

26 de abr. de 2011

O SAL DO CORPO


vagarosamente
    seguir
    pelo estreito
      das fendas,
      dos braços,
        olhos,
        orelhas

banhar
        o pescoço
        e
descer
    ao dorso
      num risco leve
        de só ser
      úmido

esquecer-se
        no gosto
         de ser

aos poucos secar
  e evaporar
    ao dedo
  de teus
pés

passar pelo teu corpo
como uma
    derradeira
      gota
       d’
     água

13 de abr. de 2011

PÔR



ver como o sol no fim da tarde
numa variação de cores tão intensa
que piscar é se deixar em últimos raios
no entre das brechas
de uma casa, de um prédio
de uma pessoa e outra

dos homens que passam andar por entre o vão das pernas
do salto alto da mulher atravessar feito um pouco de ar

(podem pensar que neste modo de olhar
neste modo de sentar existe alguma tristeza.
o que fazer se esse instante é o de se pôr
e esquecer do que em nós também faz se pôr)

do extremo duma ampla avenida
se pode ver melhor o pôr
escorrendo na língua dos raios

entre às cinco e seis da tarde
no fragmento das longas sombras
o sol, a luz, as pessoas
todos assim se esfregam ao rés do chão




*fotografia sem crédito encontrada na net

27 de mar. de 2011

SOBRE A NOSSA MESA

lembro-me das cadeiras sentadas faziam um círculo dançante
fitavam sentadas ao redor
juntos sobre a mesa ficávamos


mas ainda agora os pés balançam
vejo que tremem com o peso
arrastam-se com os beijos
e se lançam no curso da nossa água


nada mais reveste esta sala
a mesa se faz para deitar
de bandeja lançamos à fartura
assim se deitam corpos em prazer

O poema Este será meu cumprimento foi divulgado no blog O pó da escrita da amiga e poeta Maria Azenha. Fico feliz e agradecido pela presença. Para quem quiser visitar, clique aqui.

15 de mar. de 2011

ESTE SERÁ MEU CUMPRIMENTO

acabaram meus cigarros
dinheiro tenho pouco
nem uma pessoa influente de poder conheço
não levarei ninguém a qualquer promoção
portanto, não leia este verso
este poema como um meio,
por ele – que sou eu –
não chegará a nenhum futuro brilhante
nem a ocupar um cargo de bom salário
ou daqueles de excelentes aparências.
não tenho nem como trocar favores
não tenho nada que lhe possa interessar
se for por isso nem mesmo um minuto
vale perder comigo.
não precisa de discrição,
afasta-se rápido
finja em qualquer lugar que passo despercebido.
muitos conhecidos pensam em me querer
- no mínimo do que tenho.
mas não tenho nada, nem o mínimo
nem mesmo um verso rimado
não tenho o que oferecer
pode pensar que me ver
é avistar um rosto de dia de semana
um rosto de olhar cansado o trajeto de uma terça-feira
sim, sou um dia de semana arrastado
sem uma ninharia.
melhor, então, é me deixar jogado num canto
prometo que a partir de hoje
logo que alguém falar comigo
antes de todas as coisas falarei assim direto
não tenho nada – será meu cumprimento



O amigo Rogel Samuel publicou no seu blog o meu poema Um corpo vivo. Fico feliz por estar presente em seu blog. Obrigado. Para quem quiser visitar, clique aqui.


28 de fev. de 2011

como seguir apenas em um barco?


baixos e altos passam os desejos
pelo tamanho de corpos que vejo.
por entre tantas pernas e braços
como seguir apenas em um barco?

sempre aos olhos andam os traços
em muitos sinais morenos, espessos.
dentre as várias pessoas na rua
como poder idealizar uma?

só percebo em você a roupa que entra
se a hora do dia esfria ou esquenta.
mas sempre se desnudam aos olhos
nossos corpos fáceis que descem lisos.

por que todos os dias as pessoas
não se levam a sonhar em todas?

***

O poema de Rogel Samuel para Jefferson Bessa:

porque a beleza está
no imaginar

a imaginação é minha
dentro de mim

o que está fora é uma sombra
a sombra de uma sombra

como na caverna de platão

somos sonhos

os corpos passeiam pelos sonhos

pelo que somos

a lembrar

14 de fev. de 2011

um silêncio de furto




ouvi que os gatos são encantados pelo silêncio
disso não se tem certeza
quem já os viu encantados?
pisam o chão tão indiferentes

mas um silêncio encantado há por trás
de quem anda em passos de se esconder
de quem quer descobrir
roubar a voz das coisas

são esses investigadores do mundo
chegam sorrateiramente pelas costas
desejam conhecer todos os segredos
querem encontrar os meus lados
voar sobre todas as terras
com a fala da minha voz

há neles um silêncio de furto
que poderia me fazer pensar que ouço a mim mesmo



fotografia sem crédito encontrada na net

31 de jan. de 2011

até uma palavra se escrever


até uma palavra se escrever
inúmeras se movem em sentidos
se espalham em críveis significados
balançam falantes, falantes
sobre a balança do poema

mas inevitável no instante
que sacode e oscila
cai a palavra que não poderia ser outra
mas aquela única
que canta e dança feito pluma

A amiga Amélia Pais - do blog Ao longe os barcos de flores - divulgou um poema de minha autoria no blog. Para quem quiser visitar clique aqui.

17 de jan. de 2011

O HOMEM E A PASTA PRETA

I
um homem se sentou à mesa da frente
mais um dentre tantos outros:
com a pasta preta e sentado
não dá conta de que o olho
talvez tenha me olhado para se certificar
como de praxe faz em meio à sua função
de examinar documentos que redige

não seria exagerado, mas de relance pude ver
o modo como olha é o mesmo de quem olha
um certificado, dá por certo e carimba.
existe, sim, um carimbo nos olhos dele
segura o copo com quem agarra uma caneta
o leva à boca no jeito de passar e repassar papéis
e bebe tão forte como se na língua tivesse uma norma

II
a pasta preta o acompanha intimamente
com ela sobre as pernas e por entre os braços
a coloca tão fixa, numa posição tão certa
como uma filha carece de mãos paternas
para se erguer e, suspensa, ficar segura.
me observou por um instante - talvez desconfiado
de que meu rosto fosse um falso documento.
no entanto, eu não o olhava mais.

me restaram ali o chão e um pensamento.
quando me dei p’ra fora os vi seguindo:
o homem e a pasta preta.
andava carregando a alça num balanço de executar.
segurava como se estivesse voltando de um parque
voltando de mãos dadas à sua filha.
lá vão eles - tão dependentes – um dentro do outro
lacrados e perdidos num mesmo passo


O poema "O homem e a pasta preta" foi divulgado no blog "A vida é uma magnólia". Desde já agradeço pela presença no blog. Para quem quiser visitar, clique aqui.

6 de jan. de 2011

UM CORPO VIVO


as cores se abrem do corpo
aberto para mim, para quem o vê.
de súbito, eternamente acordo

à verdade de quem deve abrir-se
não sou eu, nem nós, nem ninguém
porque se quero desfolhar alguém
vejo qualquer coisa inexistente

nem como rosa, nem como cravo
hoje nada arrancarei de sua pele
não perderei, nem perderá um pelo.
sentará frente a mim de corpo nu
e aos meus olhos, sim, libertará
a minha visão já esquecida de mim
para só ver e ver um corpo vivo



Poema escrito após a leitura de um poema de Juan Ramón Jiménez lido no blog Viva a Poesia de Silvio Persivo, que também publicou no mesmo blog este poema que escrevi. Para ler clique aqui.

23 de dez. de 2010

ODE AOS PÉS




entre os pés e a terra se caminha
esqueça, portanto, à porta de casa
o cadarço, os sapatos, as meias
caso não queira ser levado sem saber
a caminhos que nunca se sentiu

deixe cair por terra os pensamentos
que ultrapassam as veredas dos pés.
fique descalço como quem fica nu
não acredite nos passos posteriores
nem nos anteriores aos seus pés

todos se cansam rápido do caminho
que fora do corpo dizem existir.
muito se disse sobre as avenidas
no entanto, à medida que se aprende
detestável é o percurso que se sabe

não se lembre dos passos além
não se deixe levar pelos rastros
num dia vão verá que a passagem
terá sido aquela que nunca pisou,
mas que esteve ali aos seus pés


Recebi um email de Ronaldo Nunes. Grato pela leitura e pelo comentário. Reproduzo-o no blog:
"... Você segura o tema com delicadeza mas com mãos firmes para não correr o risco dele perder a referência e derivar o rumo ao sabor do vento ou do momento. O tema corre sempre debaixo da sua vontade como costumam se comportar quando guiados pelos talentos dos grandes poetas..."

13 de dez. de 2010

Quem repousa não fica em silêncio


quem repousa não fica em silêncio
não há nesse instante qualquer esforço
como faz quem se empenha em silenciar

quem pretende nele pensar se enreda
numa insistência de quem não esquece
numa calma fingida de quem se cala

quem repousa não busca o silêncio
se põe num assento como um cão
deitado numa calçada e tranquilo


*foto sem crédito encontrada na net

O poema "A partir de hoje não lhe trarei mais flores" foi publicado no blog "ao longe os barcos de flores" da amiga Amélia Pais. Muito grato. Adorável estar neste barco. Para quem quiser visitar: clique AQUI.