15 de mai. de 2010

QUEDAS

as quedas que se abrem
têm no som os ruídos
menos estrondosos que
as ruínas dos poderes,
não têm ouro a se perder,
nem o que pecar,
não têm desventuras
nem mesmo um fim

me ponha nos olhos, queda,
a atenção para crateras
que meus pés calçam,
cair com os buracos
e desabar como queda d’água.
me traga o pulo dos tombos
para andar pelo desenho
mal feito das ruas

a outras quedas me largarei -
tenho uma queda pelos beijos.
vou perder a força no declinar
e me derrubar a todos os lábios
e me deitar em todos os braços.
seja hábil, queda, às minhas pernas
para faíscas brilharem
quando ao chão derrapar

*alguns créditos das imagens inseridas na montagem: no fundo, O beijo de Pablo Picasso - que também aparece no canto superior direito. No canto superior esquerdo, O beijo de Munch. As outras foram encontradas na net sem créditos.

6 de mai. de 2010

pernas cruzadas


logo que chegou ao bar
seu corpo pediu todos os olhares
mas num instante o vi falecer
embaçar.
o corpo que não transpira
derrete
para se fixar em poses.
e assim foi.

sentou-se à cadeira
de pernas cruzadas
e de tão embaraçadas
as pernas se fizeram
grandes bengalas
que assim carregam
a beleza que pesa
e que arrasta no rosto.

ah... mas se este corpo
chegasse
sem dar ares ao cheiro...
se este corpo
escorresse
a água da pele
pelo salão
e borrifasse às minhas narinas...


30 de abr. de 2010

Duas versões para Alguidar


Escrevi duas versões para o poema Alguidar. Depois de escrever uma versão (a primeira na sequência da postagem), parti para a outra sem "desfazer" a anterior. Por fim, reli as duas
e pensei em postá-las no blog.
Abraços!


hoje preparei um alguidar
não sei o que traz dentro
julgam erro na medida dada
erro na espessura e na cor

mas se agora de uma só vez
depois da hora mais fácil
dissesse aos olhos planos
que a simetria, se houver,

remexe ainda e muito mais
no barro a que pus os dedos
nas mãos que hoje se erguem
frescas no lugar com a terra úmida

****

fiz um alguidar – não lembro quando
numa hora dessa qualquer
nem lembro se havia qualquer coisa dentro
mas sei que o julgaram errado na medida
desproporção na largura, no comprimento
as laterais não tinham a mesma altura
um lado era pouco mais elevado que o outro
a espessura e a cor variavam no todo.
mas se na vez de agora dissesse que a simetria
está no lugar das minhas mãos remexidas
da argila viva nos dedos que ainda úmidos
frescos o entregam assim molhados de terra
*foto retirada da net

23 de abr. de 2010

Caixa

ganhei uma caixa do presente
......E de pressentimento me cobriu

porque abri antes de mim

abri o que esperei de antemão
......Tudo o que soube é o que poderia ser

desperto em infinitos raios

dentro da caixa me embrulhei
......Esperei na antessala

nem mesmo soube caminhar

antes de mim desembrulhei
......Rasgando a sua matéria

mas estava sim me fechando nela

antes de mim abri a caixa

...... Me fechei de olhos

e espero de mãos vazias

14 de abr. de 2010

chão da pele

desço
ao plano das águas salgadas
mas não as dos mares

levanto o copo da boca
ao brilho
do suor do corpo

erguem-se os braços
desnudos
me lavo em branca espuma

no alto
firma minha mão
num músculo alheio

a hora encharca,
o que tange se agita

vou cavando os dedos
pelo chão da pele

revolvo essas terras
suadas em que chego

7 de abr. de 2010

PAREDE DESCASCADA

Minor White - Peeled Paint

Rochester, New York (1959)



move-se o estalido que abre a casca
voz no canto inferior da parede
onde o horizonte do quarto se levanta

sem pressa o som se ergue
na parede a camada de vida vibra
a tinta se abre, desprende-se do concreto

o ruído crescente de galhos
a pequena árvore que irrompe
tronco espesso rente à parede
- madeira de casco denso – tremor de fissuras

rebenta a cor, sobre o concreto se movem as linhas
no quarto brotam as rachaduras
fraturas
cicatrizes

sobem linhas a caminho – rios se desenham
balançam como o vento de fora.
não há que ver por dentro
nada há dentro da tinta
não há nada atrás da parede
a descasca brilha na quina do quarto
logo ali onde se pode ver como fruto
como se abrisse pela primeira vez
sem saber ainda o sabor

31 de mar. de 2010

Insônia



quando acorda um poema
nos olhos pisca o contentamento

com presente densidade entra
o abraço entre o rosto móvel

de sua boca sopra o som certo
e no quarto aviva nossa insônia.

o verso desperto se põe de pé
erguidos queimamos feito vela

vejo a sua hora de sair
o poema se fez,
a vigília vai embora

de outro lugar vem chegando o sono
vem vindo me falar,
adormecer



23 de mar. de 2010

o estar simples do mundo




escorrego como quem lambe
o estar simples do mundo

brinco danço beijo
sinto fácil o olhar no toque


leve língua no mamilo
em pessoa que esquenta.

lisamente desce a transpiração
calma de só poder ver o rosto:

é vê-lo mais do que pode Deus,
porque seu corpo em mim jamais perdeu

a úmida placidez de ondas serradas
que roçam e veem na face coração.

17 de mar. de 2010

VERSOS FELIZES



noite cansada
abateu-me uma grande fadiga
sono mal dormido
versos e versos se passaram antes de dormir.
queria moldar o poema a uns versos felizes
poderia estar aqui falando de outros tristes
contudo, meu sono também não teria dormido bem.

fui imperativo ao escrever os versos
quis fazer de todos muitas linhas ditosas
imaginei mostrá-los como se deles prosperassem
como se neles se inscrevesse a felicidade
preparei a conversão possível
revirei de muitas maneiras as venturas sintáticas
vocabulares imagéticas sonoras
venturas estruturais no pensamento, nos tropos
catei por todos os cantos: partes
qualidades elementos porções quantidades

sobre mim desceu o dever de fazer uns versos felizes
não violar jamais esta necessidade
mas fiquei por essas linhas tão embaraçado
que pendente, pendurado fiquei
na corda em que estava embrulhado

por isso no cansaço permaneço
ainda moldado aos versos felizes
à noite não vi em nenhum instante brilhar o poema.
vista em noite mal dormida

a satisfação se tornou desta vez imperiosa


14 de mar. de 2010


O poema Para me chover foi publicado no Portal Entre textos.
Para quem quiser conferir,
basta clicar no link a seguir:
Portal Entretextos.
Fico muito agradecido e feliz, já que é um site que acompanho sempre.
Abraços.

Grato ao amigo Rogel Samuel

8 de mar. de 2010

nenhum outro mundo me delicia


quando nu está ao meu lado
é da pele que tenho o perfume
na hora de sentir próximo

rasa respiração pelos fios
no crescente que o envolve,
mas desperto ao que me traz

cerrando meus olhos à noite
seu aroma não me embriaga
sozinha a mente se aquieta

braço firme que ao fluir
reconheço no fulgor táctil,
na textura a que simples atento

conduzido por suas linhas
sinto a presença em plenitude
nenhum outro mundo me delicia

*fotografia de Jefferson

1 de mar. de 2010

para me chover


permaneço no quarto que não se abre
a chuva já começou a cair
a rua está úmida, as águas acontecem
abriram-se as portas, mas a demora
me continua na noite do calor passado
sentado ainda no ontem que estou.

demorado quarto dentro de paredes
arrastadas na distância de banhar-se.
à espera do lentamente vir do tempo
e no espaço, desembrulham as camadas
pintadas de concreto resistentes ao frescor
confinado no intervalo anterior à manhã

aguardarei a hora da tarde para me chover.