14 de abr. de 2010

chão da pele

desço
ao plano das águas salgadas
mas não as dos mares

levanto o copo da boca
ao brilho
do suor do corpo

erguem-se os braços
desnudos
me lavo em branca espuma

no alto
firma minha mão
num músculo alheio

a hora encharca,
o que tange se agita

vou cavando os dedos
pelo chão da pele

revolvo essas terras
suadas em que chego

7 de abr. de 2010

PAREDE DESCASCADA

Minor White - Peeled Paint

Rochester, New York (1959)



move-se o estalido que abre a casca
voz no canto inferior da parede
onde o horizonte do quarto se levanta

sem pressa o som se ergue
na parede a camada de vida vibra
a tinta se abre, desprende-se do concreto

o ruído crescente de galhos
a pequena árvore que irrompe
tronco espesso rente à parede
- madeira de casco denso – tremor de fissuras

rebenta a cor, sobre o concreto se movem as linhas
no quarto brotam as rachaduras
fraturas
cicatrizes

sobem linhas a caminho – rios se desenham
balançam como o vento de fora.
não há que ver por dentro
nada há dentro da tinta
não há nada atrás da parede
a descasca brilha na quina do quarto
logo ali onde se pode ver como fruto
como se abrisse pela primeira vez
sem saber ainda o sabor

31 de mar. de 2010

Insônia



quando acorda um poema
nos olhos pisca o contentamento

com presente densidade entra
o abraço entre o rosto móvel

de sua boca sopra o som certo
e no quarto aviva nossa insônia.

o verso desperto se põe de pé
erguidos queimamos feito vela

vejo a sua hora de sair
o poema se fez,
a vigília vai embora

de outro lugar vem chegando o sono
vem vindo me falar,
adormecer



23 de mar. de 2010

o estar simples do mundo




escorrego como quem lambe
o estar simples do mundo

brinco danço beijo
sinto fácil o olhar no toque


leve língua no mamilo
em pessoa que esquenta.

lisamente desce a transpiração
calma de só poder ver o rosto:

é vê-lo mais do que pode Deus,
porque seu corpo em mim jamais perdeu

a úmida placidez de ondas serradas
que roçam e veem na face coração.

17 de mar. de 2010

VERSOS FELIZES



noite cansada
abateu-me uma grande fadiga
sono mal dormido
versos e versos se passaram antes de dormir.
queria moldar o poema a uns versos felizes
poderia estar aqui falando de outros tristes
contudo, meu sono também não teria dormido bem.

fui imperativo ao escrever os versos
quis fazer de todos muitas linhas ditosas
imaginei mostrá-los como se deles prosperassem
como se neles se inscrevesse a felicidade
preparei a conversão possível
revirei de muitas maneiras as venturas sintáticas
vocabulares imagéticas sonoras
venturas estruturais no pensamento, nos tropos
catei por todos os cantos: partes
qualidades elementos porções quantidades

sobre mim desceu o dever de fazer uns versos felizes
não violar jamais esta necessidade
mas fiquei por essas linhas tão embaraçado
que pendente, pendurado fiquei
na corda em que estava embrulhado

por isso no cansaço permaneço
ainda moldado aos versos felizes
à noite não vi em nenhum instante brilhar o poema.
vista em noite mal dormida

a satisfação se tornou desta vez imperiosa


14 de mar. de 2010


O poema Para me chover foi publicado no Portal Entre textos.
Para quem quiser conferir,
basta clicar no link a seguir:
Portal Entretextos.
Fico muito agradecido e feliz, já que é um site que acompanho sempre.
Abraços.

Grato ao amigo Rogel Samuel

8 de mar. de 2010

nenhum outro mundo me delicia


quando nu está ao meu lado
é da pele que tenho o perfume
na hora de sentir próximo

rasa respiração pelos fios
no crescente que o envolve,
mas desperto ao que me traz

cerrando meus olhos à noite
seu aroma não me embriaga
sozinha a mente se aquieta

braço firme que ao fluir
reconheço no fulgor táctil,
na textura a que simples atento

conduzido por suas linhas
sinto a presença em plenitude
nenhum outro mundo me delicia

*fotografia de Jefferson

1 de mar. de 2010

para me chover


permaneço no quarto que não se abre
a chuva já começou a cair
a rua está úmida, as águas acontecem
abriram-se as portas, mas a demora
me continua na noite do calor passado
sentado ainda no ontem que estou.

demorado quarto dentro de paredes
arrastadas na distância de banhar-se.
à espera do lentamente vir do tempo
e no espaço, desembrulham as camadas
pintadas de concreto resistentes ao frescor
confinado no intervalo anterior à manhã

aguardarei a hora da tarde para me chover.

22 de fev. de 2010

ontem de um verso

retomar aquele verso no agora da manhã
mas ontem havia sol, hoje está nublado.
talvez não fosse ele pouquíssimo
como quando se afirma que um verso é
menos belo que um outro do poema.

fosse pouco, tivesse escrito ou ressurgido
o verso-ontem não relembraria o de agora.
era ele mais solar, de alta temperatura.
o de agora amanheceu nevoento, quente
sem chuva, um outro verso de momento.

talvez seja ele pouquíssimo
tão pouco quanto o pouco da lembrança deixada.
e me diz:
“retido no tráfego do corpo”
dizia outra coisa? ou era ele assim?
já é um outro.

ânimo do poema de agora só querer ouvir
com tímpanos doloridos o que fez do que não se fez,
este aqui é o ontem de um verso

16 de fev. de 2010

odor da carne



em você todo tremor
está no odor da carne
no suado paladar de beijo

não há nenhuma tontura
que se espalha das pernas
abertas às minhas mãos

não há mesmo nenhum deus
entre a mirra e a canela
da água eriçada das peles

eleva-se o toque crescente
sob o calor da noite, do dia
na firmeza do aroma forte

sinto o rosto hortelã de sexo
que adensa no ar, evapora
desaparece sem vertigem


*foto sem crédito encontrada na net

9 de fev. de 2010

largo de pele


em mim não se retém o medo
logo depois ando e sinto-o leve escoar.
não é a coragem que o faz ausente
e medo algum me desencoraja.
quantas vezes ameacei o medonho
e dava sobre ele marteladas de coragem.
quantas vezes busquei uma coragem
que acreditava estar no armário do medo.

mas o temor sinto e sozinho se esvai
sem os arredores da coragem admirada.
a bravura não corre pelos obstáculos
muito menos elimina o Mal
porque não se faz Bem, nem Força ou Morte.
se há alguma grandeza na coragem
digo do seu corpo grandioso e largo de pele
e por entre meus braços cresce ainda mais.

não enfrento o medo nem a coragem
nem o que escorrega do meio de seu peito
porque quando o poema se encoraja desliza
desce por mãos fortificadas, elevadas
do olhar dessas alturas de cair
sobre o rosto do beijo, da língua
dos dedos e cabelos
tudo assim erguido de corpo.

3 de fev. de 2010

ele me disse ao ouvido


para um amigo

depois de ouvir uma homenagem
em comemoração a um poeta
saíram os doutos homens da sala
julgavam da maior importância
celebrar a morte, a obra do bardo.
neles havia o prazer mórbido
da morte viva no tempo dos versos
em meio a datas e anos - feito missa.


depois de sair da sala caminhei
o trajeto se abriu em vil eternidade
e toda a idade da vida e do porvir
não existiu mais enquanto andava.
um verso ele me disse ao ouvido
li e em silêncio estávamos nós:
eu e o poeta sozinhos na rua
festejamos juntos naquela noite.


foto sem créditos