1 de mar. de 2010

para me chover


permaneço no quarto que não se abre
a chuva já começou a cair
a rua está úmida, as águas acontecem
abriram-se as portas, mas a demora
me continua na noite do calor passado
sentado ainda no ontem que estou.

demorado quarto dentro de paredes
arrastadas na distância de banhar-se.
à espera do lentamente vir do tempo
e no espaço, desembrulham as camadas
pintadas de concreto resistentes ao frescor
confinado no intervalo anterior à manhã

aguardarei a hora da tarde para me chover.

22 de fev. de 2010

ontem de um verso

retomar aquele verso no agora da manhã
mas ontem havia sol, hoje está nublado.
talvez não fosse ele pouquíssimo
como quando se afirma que um verso é
menos belo que um outro do poema.

fosse pouco, tivesse escrito ou ressurgido
o verso-ontem não relembraria o de agora.
era ele mais solar, de alta temperatura.
o de agora amanheceu nevoento, quente
sem chuva, um outro verso de momento.

talvez seja ele pouquíssimo
tão pouco quanto o pouco da lembrança deixada.
e me diz:
“retido no tráfego do corpo”
dizia outra coisa? ou era ele assim?
já é um outro.

ânimo do poema de agora só querer ouvir
com tímpanos doloridos o que fez do que não se fez,
este aqui é o ontem de um verso

16 de fev. de 2010

odor da carne



em você todo tremor
está no odor da carne
no suado paladar de beijo

não há nenhuma tontura
que se espalha das pernas
abertas às minhas mãos

não há mesmo nenhum deus
entre a mirra e a canela
da água eriçada das peles

eleva-se o toque crescente
sob o calor da noite, do dia
na firmeza do aroma forte

sinto o rosto hortelã de sexo
que adensa no ar, evapora
desaparece sem vertigem


*foto sem crédito encontrada na net

9 de fev. de 2010

largo de pele


em mim não se retém o medo
logo depois ando e sinto-o leve escoar.
não é a coragem que o faz ausente
e medo algum me desencoraja.
quantas vezes ameacei o medonho
e dava sobre ele marteladas de coragem.
quantas vezes busquei uma coragem
que acreditava estar no armário do medo.

mas o temor sinto e sozinho se esvai
sem os arredores da coragem admirada.
a bravura não corre pelos obstáculos
muito menos elimina o Mal
porque não se faz Bem, nem Força ou Morte.
se há alguma grandeza na coragem
digo do seu corpo grandioso e largo de pele
e por entre meus braços cresce ainda mais.

não enfrento o medo nem a coragem
nem o que escorrega do meio de seu peito
porque quando o poema se encoraja desliza
desce por mãos fortificadas, elevadas
do olhar dessas alturas de cair
sobre o rosto do beijo, da língua
dos dedos e cabelos
tudo assim erguido de corpo.

3 de fev. de 2010

ele me disse ao ouvido


para um amigo

depois de ouvir uma homenagem
em comemoração a um poeta
saíram os doutos homens da sala
julgavam da maior importância
celebrar a morte, a obra do bardo.
neles havia o prazer mórbido
da morte viva no tempo dos versos
em meio a datas e anos - feito missa.


depois de sair da sala caminhei
o trajeto se abriu em vil eternidade
e toda a idade da vida e do porvir
não existiu mais enquanto andava.
um verso ele me disse ao ouvido
li e em silêncio estávamos nós:
eu e o poeta sozinhos na rua
festejamos juntos naquela noite.


foto sem créditos

29 de jan. de 2010

ser desconhecido


quis o nunca visto – o nunca conhecido.
é como olhar o profundo de um poço;
não ver, mas saber – lá está ele.
e quis assim conhecer o desconhecido

ainda assim desci ao profundo
escalando todas as paredes doentias
em novas loucuras de pedregulhos
desci na busca do novo desconhecido

mas encontrei e conheci o fundo
me perguntei com o corpo já boiando
se na verdade nadei em águas estranhas
uma vez que cheguei, vi o desconhecido

sorri e voltei à borda do mesmo poço
e neste lugar ficarei para não mais sair
o que se desconhece deixarei lá onde está
simples: existe no ser desconhecido

agora desaparece por inteiro esta palavra
nem posso mais escrevê-la, nem dizê-la
– quando dita diz sua morada
uma palavra sempre diz sua existência

foto sem crédito encontrada na net

26 de jan. de 2010

mais cedo mais além

meus pés amanheceram hoje mais cedo mais além
do nosso sexo ontem à noite

meu passo acelerado pela casa me traz de repente agora
esta fotografia feita há três dias:

de pé fiz esta pose sem rosto - ombros e peitos estufados
de um corpo bajulador

cedo lavei todo o odor de sua mão que me passou no descanso e
no declive visível de meu pescoço

pensei – me lembro - na passagem e assim me coloquei inteiro
na clareza da escada do tempo

sob a capa do breve e do imperecível o simples vira uma pedra
polida feito uma ideia sem saída do lugar

e minha pele se assassinada ficará ao servil de um espectro
que um dia a fez instrumento

agora já estou na cama - sem a volta - e ficarei até anoitecer
sob o lençol úmido de seu rio

e seu dedo na firmeza crescente por entre dentes já sinaliza a
face do mamilo trêmulo em minha língua

23 de jan. de 2010

O Branco e o Mal nos 'poemas-corpo'

Um amigo me enviou um email (fico muitíssimo grato) no qual me comentava sobre a influência do Mal nos ‘poemas-corpo’ e que, por isso, eles se tornam ainda mais fortes e belos, pois a arte maldita representa a grande e necessária infração moral. Contudo, em resposta, digo que estes poemas não estão sob o signo da maldição. Por isso, não são malditos.
A sensualidade maldita ou marginal toma força, sobretudo, com os românticos. E, depois, como se sabe, aparecem outros enquanto ecos. Sim, estão submetidos ao Mal. A presença da lascívia para a maldição e para a marginalidade se relaciona à transgressão de estar do lado oposto à moral “superior”. Assumem tal papel. E andam pelo lado selvagem. Sentem deliciosamente o prazer condenado. Descobrem que pode haver a beleza do Mal, porque há o Bem.
Os poemas-corpo entendem que ser maldito está no oposto de ser bendito, mas ligados por uma mesma linha que os dispõe bem próximos. Na mesma proporção, ambos se subjugam, porque ouvem uma mesma ordem, ao prazer do feitiço e ao prazer da bondade. Quem está no ‘corpo’ nem pensa em lançar flechas ao que liberta nem ao que reprime. Há uma satisfação que não está no corpo por si, mas em senti-lo. E que se eu disser o que ele é não o será mais. Sinta-o.
Mas, se os poemas-corpo transgridem, conforme você diz, isso o fazem porque não querem transgredir. Então, o branco – por ser o mais antigo – não está na oposição ao ‘preto’ (afirmação que faz alusão a um poema anterior). Ele é branco de uma leveza que não divide bondade nem maldição. É simplesmente corpo e, dessa maneira, vamos à direção certa das profundezas superficiais da pele.

18 de jan. de 2010

branco

brilha sob a luz desta noite
e vaza do corpo profundo
o mais branco e mais antigo
- branco líquido de leve tinta.

molha por inteiro este poema
como o branco dos olhos, do papel
do leite que se bebe - melando
a ponta da língua em cada verso.

ficar suspenso neste galho, nele
saltar, mover-se no balanço de deixar
vir à tona a camada do branco
que jorra de todo este poema.


11 de jan. de 2010

todo lugar vira outro


todo lugar vira outro.
quando chego já me retiro.
ou quero voltar. ou ir.
ou quero chegar. ou ficar.
é tão absoluto ficar onde não-fico -
solto-me do lugar e
na estabilidade de onde
não-chego
é que chego

o sempre transportar
ultrapassar portas
soltar–me de todas elas
subindo rampas
pontes e viadutos.
subo escadas
da minha subida no subir
a sempre dar saltos

saindo e entrando
pelo lugar que é outro.
contudo o lugar-outro
é tão correto, tão ele mesmo
que me retiro
e me vou para outro

eu e lugares independentes
desligo-me

faço estar onde não-estou

5 de jan. de 2010

luz laranja fim de tarde



na luz laranja fim de tarde
desce o odor de dourado táctil
na leitura erguida que abrasa

por entre o azul que cintila
se desnuda quente deste verso
o inundado vermelho da tez fina

na cor destes olhos vou deitar-me
mergulho do que no corpo percorre
para todas as cores lamber

feito o declive do tecido rasteiro
e quase plano da língua do sol
que eleva a coragem de ver corpo
*fotografia de Jefferson Bessa

1 de jan. de 2010

Aquário


toda coisa tem seu aquário
que a nado passa nessas águas.

contudo é de um azul encharcado
embaraçado entre algas.

confluência escorrida fluvial
na brecha aquariana de passar.

desce por um fio como rio
como braço estendido.

todo aquário nasce rachado
como o rio tem uma boca.

todo encontro é como enchente
para fora das suas águas.

Pintura retirada da net e sem créditos. Ela representa Aquário (décimo primeiro signo do zodíaco).