14 de nov. de 2015
14 de out. de 2015
BASTOU PASSAR À BEIRA-MAR
bastou passar à beira-mar
ver atento, ouvir o zumbido,
limpar o banho, o ar, a praia
ver sem brilho e bronzeado.
depois de o sol descer e arder
os olhos viam vermelhos de sal
eram de brasa salina, sanguínea
e não tingiu o rosto do banhista.
mas se podia ver o mar temível
extraindo pernas braços olhos.
o mar - o grande mar - era recuo
permanente nesta sua crescente.
arrastou - e arrasta - banhistas
interessados no lazer dos dias,
mas o mar inundava de sangue
marinho, vinha de águas trazidas
era o sangue de quem chega
o sangue marítimo de extração
o sangue de túmulos de ouro
o sangue de assassinos heróis.
sim, digo que de mim arrastam
o vermelho de lágrimas e alergias
e o vermelho que tinge o rosto
de tanto rir de quem na praia fica.
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Gagueiras
4 de set. de 2015
O FOGO
A Francisco Brennand *
o fogo se sente ao chegar
pois à vista tudo cresce
mas a plenitude de arder
como sempre está por vir
no forno queima ao entrar.
forno de fogo invisível
escuro claramente feito
por isso também visível:
faíscas de ruínas refeitas.
pela escuridão das paredes
se entra em uma caverna
- fornada - e nela se queima
pois tem paredes de carne
negra vermelha cerâmica.
quem não entra em vapor
na noite desta iluminação
mais luz não poderá ver.
quem sente o intenso calor
esquece a luz do visto antes
para acender o ver depois:
seu escuro o corpo clareia
sente-se oleiro: se faz no feito
pois refeito - feitiço do fogo.
na epiderme fagulham argilas
em água, em ar de conversão.
brasando entre pele e visão
quem entra se desfaz refaz
feito jarro de santuário viver
pois se obra do direto fogo.
no hálito de magia fagulha
acende-se num fio de fogo:
do escuro ruínas se erguem
das cinzas o barro se refaz
e sair se refaz feito entrar:
o que se abre na escuridão
refaz na alma o vir à luz
no oval dos arcos do céu.
mas a plenitude de arder
já que sempre está por vir
queimará ao sair do forno:
o que obra nos faz ovular
pois transfunde todo o ser.
* Na cidadela de barro do artista, existe um forno que foi mantido como parte do museu.
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Moventes
23 de jul. de 2015
OXALÁ
o que sabe quem diz oxalá?
sabe-se de uns sabores vindos
do lado de lá vêm vindo
mas o que sabe? sabe-se lá
quem ouve acolhe o som
o que deve ser? sei lá!
quando se ouve se ouvem
tantos que os vejo oxalás
ora se ouve 'se Deus quiser'
ao escrever me chega outro
ora se ouve Oxalá - o velho
de cajado - invoca minha avó
de onde também diz 'Tomara'
diz outro e outros deste guia.
como saber quem me guia?
lá vêm ainda, estão por vir
me evocam estas palavras
ou esta palavra? escrevo
agora se pode ouvir chegar
mas que oxalá virá a dizer?
sabe-se disto que vem vindo
no meio de tantas atravessa
uma outra, se escreve vindo
perpassa agora outro Alá
de repente uma criança na rua
passa e me diz: olha pra lá
olhei e muitos ainda vinham
lá vêm eles! olha lá, ah lá!
sabe-se de uns sabores vindos
do lado de lá vêm vindo
mas o que sabe? sabe-se lá
quem ouve acolhe o som
o que deve ser? sei lá!
quando se ouve se ouvem
tantos que os vejo oxalás
ora se ouve 'se Deus quiser'
ao escrever me chega outro
ora se ouve Oxalá - o velho
de cajado - invoca minha avó
de onde também diz 'Tomara'
diz outro e outros deste guia.
como saber quem me guia?
lá vêm ainda, estão por vir
me evocam estas palavras
ou esta palavra? escrevo
agora se pode ouvir chegar
mas que oxalá virá a dizer?
sabe-se disto que vem vindo
no meio de tantas atravessa
uma outra, se escreve vindo
perpassa agora outro Alá
de repente uma criança na rua
passa e me diz: olha pra lá
olhei e muitos ainda vinham
lá vêm eles! olha lá, ah lá!
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Gagueiras
1 de jun. de 2015
Cruzamentos
lá na esquina
o arcanjo branco
e o diabo vermelho.
na outra esquina
são jorge e o dragão.
na outra, dois homens.
duas mulheres, na outra.
nas esquinas da cidade
uma cigana, um índio
um pirata, uma onça.
nas esquinas da cidade
nas ruas, nos becos
nos cruzamentos
a cidade inteira passa
como se passasse
por uma rua das cruzes.
16 de abr. de 2015
A VELHICE ATRAVESSA
esta velhice dos mais velhos
envelhece minha resistência,
pensa até quando vou escrever
sem que a idade não seja abalada
sem que um pouco me dê rasteira
existem os jovens que são jovens
pouco ontem e muito amanhã
mas tão pouco se vive neste afã,
só se tem o que faz de si em si
limitação por ser uma paragem
mas aqui a velhice atravessa
chega na juventude de ser velha
ou na velhice de ser jovem:
ontem de hoje ou amanhã de ontem
ou amanhã no hoje de anteontem
por isso escrevo de me apoiar
por entre os braços de levantar
estas mãos cansadas de jovem
tão leves de caminhar antigas
são passos lentos de novo andar
em gestos rápidos de velho saber
o que se vê do novo envelhece
na audição do velho em nascimento.
a tarde desta manhã me anoitece
passo e esqueço a idade em sorriso
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Moventes
22 de mar. de 2015
EU ANDO ESCREVENDO
Na próxima semana irei reler
eu ando escrevendo
muito, muitos versos
de agora e de anteontem
e outros que andei escrevendo
também ando relendo versos do mês passado
reli outros do ano anterior.
andarei escrevendo porque escrevo andando
às vezes parado na esquina
às vezes sentado no banco de ônibus
ontem porque este verso lembra
foi quando vi e ando
quando de repente passaram carros
caminhões motos aviões
andavam velozes mas não andavam
mas quando se escrevem eles andam
passavam sentados conduzidos
conduziam a direção que os dirigia
andavam sem andar
mas este verso que aqui se senta
não os conduz à direção alguma:
é que o verso anda escrevendo
como ando escrevendo
hoje desde o ano retrasado
num atraso andante
num agora sentado passando
ouve-se este poema
quando ele se escreve passeia
ele anda escrevendo e parado caminha
quando lido passa por ponte
segue por ruelas
quando escreve automóveis
o verso se escreve e anda
desandando carros e aviões e foguetes
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21 de fev. de 2015
HOJE ME DERAM DE LEMBRANÇA
hoje me deram de lembrança
poder me ver assim esperando
por muito da esperança saber
viram o ponto final da espera
o que se pode saber da espera?
de tanto esperar me esqueci.
mas sempre alguém me lembra
é quando me armam uma cilada:
de que vale esperar desesperado
se quem me disse zomba de ver?
nele me vejo nesse pobre real
diz que esperarei nesta espera
esquecido, caminho lentamente
às vezes me sento, me levanto.
quando dizem, querem me assentar
espero demais, ainda me dizem
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Gagueiras
30 de dez. de 2014
DA RUA SE LANÇOU UMA FITA
da rua se lançou uma fita
para dentro das casas
depois se lançaram mais duas
mas olhos que não fitam
não atravessam janelas
nem mesmo veem ruas
grandes fitas jogadas
mas depois varridas
desceram pelas escadas
a vassoura arrastou versos
que foram do chão ao ar
agora descem recolhidos
às nossas mãos voltaram
mas quem grande lança
acolhe o pequeno olhar
o que fazer de quem lê
vivendo apenas de varrer
as grandezas deste chão?
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Carne e Vendaval de Carnaval
28 de nov. de 2014
ME CONCEDERAM UM EMPREGO
I
me concederam um emprego
nele não me emprego
nem ele a mim se emprega
somamos juntos um tempo vago
não o vago que se emprega
mas o solto que há no preso
me concederam um emprego
sem emprego nem martelo
não há elo e nem poderia haver
nem um prego na parede se prende
quando se prende está frouxo
quando frouxo trepida na ferrugem
II
o que se vê dos dias é o calendário
chegar dia cinco ou dia primeiro
o que se espera dos dias é o pagamento
sem me empregar recebo os dias
pagando o recebimento da ninharia
recebendo o pagamento da punição
nada se faz do resgate do vago tempo
reparo assim dos dias que se fazem
às mãos recebo a pendência mensal
não sei, mas levo às escondidas
em algum bolso da minha calça
um sorriso a isso e um desemprego
mas o que foi mesmo que roubei?
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Gagueiras
25 de out. de 2014
HOJE ME DERAM DE LEMBRANÇA
hoje me deram de lembrança
poder me ver assim esperando.
por muito da esperança saber
viram o ponto final da espera
o que se pode saber da espera?
de tanto esperar me esqueci.
mas sempre alguém me lembra
é quando me armam uma cilada:
de que vale esperar desesperado
se quem me disse zomba de ver?
nele me vejo nesse pobre real
diz que esperarei nesta espera
esquecido, caminho lentamente
às vezes me sento, me levanto.
quando dizem, querem me assentar
espero demais, ainda me dizem
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18 de set. de 2014
PAREDE DESCASCADA
move-se o estalido que abre a casca
voz no canto inferior da parede
onde o horizonte do quarto se levanta
sem pressa o som se ergue
na parede a camada de vida vibra
a tinta se abre, desprende-se do concreto
o ruído crescente de galhos
a pequena árvore que irrompe
tronco espesso rente à parede
- madeira de casco denso – tremor de fissuras
rebenta a cor, sobre o concreto se movem as linhas
no quarto brotam as rachaduras
fraturas
cicatrizes
sobem linhas a caminho – rios se desenham
balançam como o vento de fora.
não há que ver por dentro
nada há dentro da tinta
não há nada atrás da parede
a descasca brilha na quina do quarto
logo ali onde se pode ver como fruto
como se abrisse pela primeira vez
sem saber ainda o sabor
Do livro "Nos úmidos planos das mãos"
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Nos úmidos planos das mãos"
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