1 de jun. de 2015

Cruzamentos


lá na esquina 
o arcanjo branco
e o diabo vermelho.
na outra esquina 
são jorge e o dragão.
na outra, dois homens.
duas mulheres, na outra.
nas esquinas da cidade
uma cigana, um índio
um pirata, uma onça.
nas esquinas da cidade
nas ruas, nos becos
nos cruzamentos
a cidade inteira passa
como se passasse
por uma rua das cruzes.

16 de abr. de 2015

A VELHICE ATRAVESSA


esta velhice dos mais velhos
envelhece minha resistência,
pensa até quando vou escrever
sem que a idade não seja abalada
sem que um pouco me dê rasteira

existem os jovens que são jovens
pouco ontem e muito amanhã
mas tão pouco se vive neste afã,
só se tem o que faz de si em si
limitação por ser uma paragem

mas aqui a velhice atravessa
chega na juventude de ser velha
ou na velhice de ser jovem:
ontem de hoje ou amanhã de ontem
ou amanhã no hoje de anteontem

por isso escrevo de me apoiar
por entre os braços de levantar
estas mãos cansadas de jovem
tão leves de caminhar antigas
são passos lentos de novo andar

em gestos rápidos de velho saber
o que se vê do novo envelhece
na audição do velho em nascimento.
a tarde desta manhã me anoitece
passo e esqueço a idade em sorriso


22 de mar. de 2015

EU ANDO ESCREVENDO


Na próxima semana irei reler 
eu ando escrevendo 
muito, muitos versos 
de agora e de anteontem
e outros que andei escrevendo 
também ando relendo versos do mês passado
reli outros do ano anterior.
andarei escrevendo porque escrevo andando
às vezes parado na esquina
às vezes sentado no banco de ônibus

ontem porque este verso lembra
foi quando vi e ando
quando de repente passaram carros
caminhões motos aviões
andavam velozes mas não andavam
mas quando se escrevem eles andam
passavam sentados conduzidos
conduziam a direção que os dirigia
andavam sem andar

mas este verso que aqui se senta
não os conduz à direção alguma:
é que o verso anda escrevendo
como ando escrevendo
hoje desde o ano retrasado
num atraso andante
num agora sentado passando 

ouve-se este poema
quando ele se escreve passeia
ele anda escrevendo e parado caminha
quando lido passa por ponte
segue por ruelas 

quando escreve automóveis
o verso se escreve e anda
desandando carros e aviões e foguetes

21 de fev. de 2015

HOJE ME DERAM DE LEMBRANÇA


hoje me deram de lembrança
poder me ver assim esperando
por muito da esperança saber
viram o ponto final da espera

o que se pode saber da espera?
de tanto esperar me esqueci.
mas sempre alguém me lembra
é quando me armam uma cilada:

de que vale esperar desesperado
se quem me disse zomba de ver?
nele me vejo nesse pobre real
diz que esperarei nesta espera 

esquecido, caminho lentamente
às vezes me sento, me levanto.
quando dizem, querem me assentar
espero demais, ainda me dizem

30 de dez. de 2014

DA RUA SE LANÇOU UMA FITA



da rua se lançou uma fita
para dentro das casas
depois se lançaram mais duas

mas olhos que não fitam
não atravessam janelas
nem mesmo veem ruas

grandes fitas jogadas
mas depois varridas
desceram pelas escadas

a vassoura arrastou versos
que foram do chão ao ar
agora descem recolhidos

às nossas mãos voltaram
mas quem grande lança
acolhe o pequeno olhar

o que fazer de quem lê
vivendo apenas de varrer
as grandezas deste chão?

28 de nov. de 2014

ME CONCEDERAM UM EMPREGO


I

me concederam um emprego
nele não me emprego
nem ele a mim se emprega

somamos juntos um tempo vago
não o vago que se emprega
mas o solto que há no preso

me concederam um emprego
sem emprego nem martelo
não há elo e nem poderia haver

nem um prego na parede se prende
quando se prende está frouxo
quando frouxo trepida na ferrugem

II

o que se vê dos dias é o calendário
chegar dia cinco ou dia primeiro
o que se espera dos dias é o pagamento

sem me empregar recebo os dias
pagando o recebimento da ninharia
recebendo o pagamento da punição

nada se faz do resgate do vago tempo
reparo assim dos dias que se fazem
às mãos recebo a pendência mensal

não sei, mas levo às escondidas
em algum bolso da minha calça
um sorriso a isso e um desemprego 

mas o que foi mesmo que roubei?

25 de out. de 2014

HOJE ME DERAM DE LEMBRANÇA


hoje me deram de lembrança
poder me ver assim esperando.
por muito da esperança saber
viram o ponto final da espera

o que se pode saber da espera?
de tanto esperar me esqueci.
mas sempre alguém me lembra
é quando me armam uma cilada:

de que vale esperar desesperado
se quem me disse zomba de ver?
nele me vejo nesse pobre real
diz que esperarei nesta espera 

esquecido, caminho lentamente
às vezes me sento, me levanto.
quando dizem, querem me assentar
espero demais, ainda me dizem

18 de set. de 2014

PAREDE DESCASCADA


move-se o estalido que abre a casca
voz no canto inferior da parede
onde o horizonte do quarto se levanta

sem pressa o som se ergue
na parede a camada de vida vibra
a tinta se abre, desprende-se do concreto

o ruído crescente de galhos
a pequena árvore que irrompe
tronco espesso rente à parede
- madeira de casco denso – tremor de fissuras

rebenta a cor, sobre o concreto se movem as linhas
no quarto brotam as rachaduras
fraturas
cicatrizes

sobem linhas a caminho – rios se desenham
balançam como o vento de fora.
não há que ver por dentro
nada há dentro da tinta
não há nada atrás da parede
a descasca brilha na quina do quarto
logo ali onde se pode ver como fruto
como se abrisse pela primeira vez
sem saber ainda o sabor


Do livro "Nos úmidos planos das mãos"

31 de jul. de 2014

O SORRISO FOI DITO


o sorriso foi dito
por alguém visto
mas não houve sorriso
tampouco o seu contrário:
nem rosto fechado ou aberto.
onde o puseram?
de onde ele veio?
disseram: eu o vi no seu rosto.

pobre de quem não sabe ver
e me faz querer acreditar.
quem verdadeiramente sorri
nem mesmo se vê,
muito menos diz de quem sorri. 
quando há um sorriso
com ele sorri, somente.

9 de jun. de 2014

ESCREVER FITAS


escrever como quem lança
folhas letras sorrisos ao ar.
quando surgem estas fitas
todas as palavras dançam 

entram em festa de linhas
pois recebem teus olhares
passantes de ver sem fim
lendo chega perto de mim

mas não tenha obrigações
é triste ter de carregar fitas
arrastar para depois soltar
ficar para depois reclamar




em saltos para fora da folha
inicia-se no solto das mãos.
como quem lança serpentina
sentindo que mãos se lançam

desçam fitas que se escrevem 
fitando por ir do céu ao chão.
ler fitas caindo e caio em ti
para juntos ascendermos 

por entre teus dedos e mãos
teus braços, versos e fitas
se arremessar bem no meio
assim caímos bem entre nós

2 de mai. de 2014

GUARDA-CHUVA


quando abro guarda-chuva
não me guardo,
me abro e guardo gotas:
molhado feito o homem
que, antes de inventar
e abrir o guarda-chuva,
esperava, só, a chuva fina
e sob a árvore guardava
gotas das finas águas

por isso nada tão estranho
quando se ouve vou abrir
agora meu guarda-chuva,
porque há, sim, um cismar 
de alguém que se guardou-
da-chuva, talvez sem se dar 
conta de que vive um guarda-
da-chuva

mas quem guarda a chuva
se abre às gotas se esvaindo,
goteja junto dos telhados
desce fluente dos arames
se senta como uma poça
se deixa aguar de chuva fina
se deixa molhar, se enxaguar

15 de abr. de 2014

Hora da poesia

O poema "Hora da poesia" foi publicado no blog "Alma Acreana" do amigo Isaac. Agradeço por partilhar a nossa festa. Para visitar, clique aqui.