23 de fev. de 2014
EU RIO O RIO
quando se diz eu rio
se abre no rir do rio,
lento na curva se vai
formas se encostam
na sua certa errância
o verbo assim existe
quando não se antepõe
ao eu somente pessoal
quando o rio se alarga
passa calmo sem voltar
se abre rio nos lábios
o eu rio vai com o rio
à beira do verbo o som
de água na boca se faz
se desfaz o que estranha
escorre em língua de rio
não tem jeito, quem diz
eu rio não se diz de si
diz no rio e nele os lábios
passam pelo rio rindo
O poema "Eu rio o rio'' foi divulgado no blog de Rogel Samuel. A foto escolhida pelo amigo também aqui foi inserida por estar em perfeita harmonia com o poema. Para visitar, clique AQUI.
Com a mesma honra, informo que o poema foi publicado no blog Alma Acreana de Isaac Melo, clique AQUI. Obrigado!
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Moventes
4 de fev. de 2014
ONDE FOI QUE EU VIM PARAR?
onde foi que eu vim parar?
me largaram nesta terra
nesta em que só se tem
pés e passos que saem
para estar em outra terra
nem se vê simples o solo
pois antes do chão se vê
o céu. Mas deste nada brota,
nada rebenta, nada rasga
e mantiveram os pés no céu
deste dia pra cá se perdeu
o azul, o marrom, o lilás.
por isso aqui me pergunto
onde foi que eu vim parar?
nesta terra sem terra alguma
neste céu que é outra coisa
desses olhares à distância
ao meu redor me cerquei
me prendi e aqui parei.
de tanto ouvir ao longe
fico e imagino outra terra
cansado do que não existe
dizem que me aborreço
desta terra, de estar aqui.
nada disso, nada disso!
esgotado de ter que sair
dela - disto estou cansado -
de olhos que olham pra lá
às vezes me põem algemas
estas de rejeição e ojeriza
e fico em linhas cáusticas.
sem dar por isso me deixo
às vezes ir para esta noite
pobre, cheia de sono pesado
daí olho para o chão e sorrio
e vejo que devo retirar o céu.
não o céu azul acima de mim
mas este que roubou o chão
que leva ao "onde vim parar?"
no qual eles insistem em pisar
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Gagueiras
2 de fev. de 2014
Um poema no blog Alma Acreana
O poema "A palavra do poeta" foi divulgado no blog Alma Acreana. Muito agradecido. Para visitar o blog, clique aqui.
5 de jan. de 2014
A PALAVRA DO POETA
"onde estão teus versos, poeta?
me lembro de teus alexandrinos
de teus ritmos, de tuas palavras!
recite um para ouvirmos
canta ao menos um
canta aqueles versos livres,
aqueles altos, dançantes.
pode ser áspero, pode ser úmido
canta, poeta!
onde estão teus versos?"
"meus versos silenciaram
não tenho mais alexandrinos
não tenho mais versos livres
o que escrevo é o silêncio.
as coisas precisam dormir.
não sei cantar, apenas sei falar
mas as palavras nada dizem
vou seguir meu caminho
já usei muitas palavras, preciso ir
outros virão, outros chegarão"
"canta, então, teu silêncio
o silêncio de teus versos acordará a rua
com o contentamento de ouvir.
nesta rua não temos mais os sinos
ensurdecemos para badalos pesados
nunca mais os ouvimos, pois sempre
nos levam a lembrar, a lembrar
a lembrar de tudo que nunca fizemos.
canta, agora, para esta rua.
sem palavras tu não és poeta
serás aquele homem que há pouco passou.
lá foi ele, seguindo cabisbaixo e rouco,
pensativo e mudo.
canta, então, teu silêncio!"
"não, meu amigo, onde a poesia está
o silêncio não pode estar.
o que não diz não é poema
e eu tão cansado de palavras
me deixei silenciar"
"mas tu não podes esquecer
quando te ouvimos, as palavras cantam
o cansaço provém da tua desconfiança.
canta, homem, diga um verso
e verás que o que se diz se levantará.
canta! todos os ouvidos,
toda a rua se levantará contente.
que seja um verso de tristeza!
canta, verás que todos se levantam
todos se levantarão como um só
ou com muitos sós.
tua palavra bem queima, bem molha.
a quem deste a tua audição?
de quem ouviste este engano?
se deixou ouvir alguém sem ouvidos?
o silêncio não vive para ti
vive para alguém como aquele homem
frio e arrogante de palavras
mas tu és poeta
não podes esquecer:
quando na palavra o mundo chega
com simplicidade sabes levantar
pois com o vento estás.
mas tu és poeta
não podes esquecer:
quando tu escreves,
tudo dança"
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silêncio
13 de dez. de 2013
OS OLHOS COMEÇARAM A PENAR
às vezes as coisas no homem
dão assim para penar.
e na pena de pensar
e de pensar penando
os olhos começam a penar
como uma vizinha
um mendigo, uma montanha
como pena esta cidade.
de tanto olhar acabei nesta pena
e neste sorriso de canto
(se fosse em branco
como é o branco
não teria pena daquela folha.
mas numa folha impressa
cada pena é a letra da folha.
se fosse folha de poema
mas é folha de jornal.
se fosse folha de árvore
jamais teria pena
mas essa pena é quase
quase uma pena de ave
que na doença perdeu as penas)
às vezes as coisas no homem
dão assim para penar.
como aquele que um dia
esqueceu o leve da pena do pássaro
para dar à pena da composição
o seu grande espírito
que, arrebatado, sentiu dor
e deu à pena a forma de bico
se viu feito um pássaro
mas, sem voo, escreveu
a doença do sentido pena
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24 de nov. de 2013
A DOR PESADA
agora já não sei quem sofre mais:
se sou eu ou é a minha vizinha.
ela quis me colocar na balança,
quis comparar quem sofre mais
mania de ser mais em tudo que faz
ela toda é só dores, só calafrios
e minha boca assim calada e fria
sente nos ouvidos os sofrimentos
e como dói estar na dor ouvinte!
uma dor impaciente e irritada.
mas a vejo já sofrida só de pensar
em subir no prato da dor da balança
que pesar é o peso das infecções
de minha vizinha! sem o peso
leve da pena, vive no penar
da sensação doída de existir
que prazer de dor terá em ser mais
no mais pesar da balança ofendida?
talvez o prazer da dor na dolorida
medida de sentir mais pena de si
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10 de nov. de 2013
NOITE DE CARNAVAL E OUTRAS NOITES
voltamos juntos
da noite de carnaval
acendemos velas:
a baixa luz se ergue
o corpo acende
agora se vê:
a parafina brinca
o pavio queima
beijamos muito
no quarto iluminado
brincamos feito serpentina
agora se vê:
vamos descendo
agora se vê:
o branco das velas
descendo úmido
no aroma ascendente
dos corpos
noites de carnaval, noites - poema de Rogel Samuel
(para Jefferson Bessa)
noites de carnaval, noites
de ruidoso amor
o baticum dos tambores
africanos
os humores eróticos
os tremores requebrados
passistas apressados
nas noites de antigos
carnavais
perfume de lança-perfumes
inebriantes
fontes
danças de estrelas
na batalha de confetes
requebros noturnos
ruas apertadas
portas abertas
noites de carnaval, noites
de luar
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25 de out. de 2013
O e-livro no site Entretextos
O site Entretextos divulgou o e-livro "Nos úmidos planos das mãos". Abaixo está o comentário do site. Para acessar clique aqui. Sempre grato!
Jefferson Bessa é poeta. Já conquistou seu "leitorado", mas como o escritor - ou melhor, a obra que escreve e reescreve - vive do contato verbo-auditivo-visual com os leitores, Entretextos apresenta e-livro de Jefferson Bessa. Quem não leu ainda não sabe o que deixa de degustar. Bom apetite!
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E-LIVRO,
Nos úmidos planos das mãos"
16 de out. de 2013
MANCHA
I
mancha de tamanho médio
ferimento castanho, visto
no lado amarelo da maçã
madura, de pouco vermelho
passou o tempo sem pecado
pois na pele rugosa bem vive
vê-la apenas é pouco, mais:
tocá-la e desligar significados
mordê-la e nos deixar dentro
II
e a mancha que no início
se mostrou muito evidente
como uma pancada no olho?
é o primeiro sinal do maduro?
ou a grande onda de um
marinheiro de primeira viagem?
quem viaja não tem escolha
leva e traz no rosto a mancha
castanha, vermelha, amarela
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29 de set. de 2013
BRINCO
Este poema faz parte do grupo Carne e vendaval de Carnaval. Ao clicar neste título em Marcadores (na coluna ao lado), os outros poemas poderão ser lidos.
brinco
me fantasio.
ponho um brinco
em círculo
me enlaço
aos abraços
brinco
simples criança
louco, poeta
ponho um verso
colar no pescoço:
me enrosco
no seu rosto
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Carne e Vendaval de Carnaval
12 de set. de 2013
NU nº 5
ver já cansou
porque não se entra mais
no templo
de ver na contemplação
mas se ergue logo
em sentir
quando vem a ser nu
assim no escuro
logo sentir acontece
sem luz e na luz
de tocar, de encostar
nas mãos há muitos sins
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24 de ago. de 2013
O POETA PULA COMO O CARNAVAL
Este poema faz parte do grupo Carne e vendaval de Carnaval. Ao clicar neste título em Marcadores (na coluna ao lado), os outros poemas poderão ser lidos.
o poeta pula como o carnaval
do meio-fio para o meio da rua,
o poeta pula como o carnaval
para o meio do mundo.
pula de fevereiro para o meio do ano!
pula o verso e no chão se faz
e no meio sempre vai passar.
pula de um extremo ao outro.
e para quem pensa que vai passar
que vai voltar ao normal, pois passa
e que pro meio-fio vamos voltar
grande engano! O verso e a festa
seguem ao largo, passeando
claramente às escondidas.
o poeta pula como o carnaval
do meio-fio para o meio da rua,
o poeta pula como o carnaval
para o meio do mundo.
pula de fevereiro para o meio do ano!
pula o verso e no chão se faz
e no meio sempre vai passar.
pula de um extremo ao outro.
e para quem pensa que vai passar
que vai voltar ao normal, pois passa
e que pro meio-fio vamos voltar
grande engano! O verso e a festa
seguem ao largo, passeando
claramente às escondidas.
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