5 de jan. de 2014

A PALAVRA DO POETA


"onde estão teus versos, poeta?
me lembro de teus alexandrinos
de teus ritmos, de tuas palavras!
recite um para ouvirmos
canta ao menos um
canta aqueles versos livres,
aqueles altos, dançantes.
pode ser áspero, pode ser úmido
canta, poeta!
onde estão teus versos?"


"meus versos silenciaram
não tenho mais alexandrinos
não tenho mais versos livres
o que escrevo é o silêncio.
as coisas precisam dormir.
não sei cantar, apenas sei falar
mas as palavras nada dizem
vou seguir meu caminho
já usei muitas palavras, preciso ir
outros virão, outros chegarão"


"canta, então, teu silêncio
o silêncio de teus versos acordará a rua 
com o contentamento de ouvir.
nesta rua não temos mais os sinos
ensurdecemos para badalos pesados
nunca mais os ouvimos, pois sempre 
nos levam a lembrar, a lembrar
a lembrar de tudo que nunca fizemos.
canta, agora, para esta rua.
sem palavras tu não és poeta
serás aquele homem que há pouco passou.
lá foi ele, seguindo cabisbaixo e rouco, 
pensativo e mudo.
canta, então, teu silêncio!"


"não, meu amigo, onde a poesia está
o silêncio não pode estar.
o que não diz não é poema
e eu tão cansado de palavras 
me deixei silenciar"


"mas tu não podes esquecer
quando te ouvimos, as palavras cantam
o cansaço provém da tua desconfiança.
canta, homem, diga um verso
e verás que o que se diz se levantará. 
canta! todos os ouvidos,
toda a rua se levantará contente.
que seja um verso de tristeza!
canta, verás que todos se levantam
todos se levantarão como um só
ou com muitos sós.
tua palavra bem queima, bem molha.
a quem deste a tua audição? 
de quem ouviste este engano?
se deixou ouvir alguém sem ouvidos?
o silêncio não vive para ti
vive para alguém como aquele homem
frio e arrogante de palavras
mas tu és poeta
não podes esquecer:
quando na palavra o mundo chega
com simplicidade sabes levantar
pois com o vento estás.
mas tu és poeta
não podes esquecer:
quando tu escreves,
tudo dança"

13 de dez. de 2013

OS OLHOS COMEÇARAM A PENAR


às vezes as coisas no homem
dão assim para penar.
e na pena de pensar
e de pensar penando 
os olhos começam a penar
como uma vizinha
um mendigo, uma montanha
como pena esta cidade.
de tanto olhar acabei nesta pena
e neste sorriso de canto

(se fosse em branco
como é o branco
não teria pena daquela folha.
mas numa folha impressa
cada pena é a letra da folha.
se fosse folha de poema
mas é folha de jornal.
se fosse folha de árvore
jamais teria pena
mas essa pena é quase
quase uma pena de ave
que na doença perdeu as penas)

às vezes as coisas no homem
dão assim para penar.
como aquele que um dia
esqueceu o leve da pena do pássaro
para dar à pena da composição
o seu grande espírito
que, arrebatado, sentiu dor
e deu à pena a forma de bico
se viu feito um pássaro
mas, sem voo, escreveu
a doença do sentido pena

24 de nov. de 2013

A DOR PESADA


agora já não sei quem sofre mais:
se sou eu ou é a minha vizinha.
ela quis me colocar na balança,
quis comparar quem sofre mais

mania de ser mais em tudo que faz
ela toda é só dores, só calafrios
e minha boca assim calada e fria
sente nos ouvidos os sofrimentos

e como dói estar na dor ouvinte!
uma dor impaciente e irritada.
mas a vejo já sofrida só de pensar
em subir no prato da dor da balança

que pesar é o peso das infecções
de minha vizinha! sem o peso
leve da pena, vive no penar
da sensação doída de existir

que prazer de dor terá em ser mais
no mais pesar da balança ofendida?
talvez o prazer da dor na dolorida 
medida de sentir mais pena de si

10 de nov. de 2013

NOITE DE CARNAVAL E OUTRAS NOITES


voltamos juntos
da noite de carnaval

acendemos velas:
a baixa luz se ergue
o corpo acende

agora se vê:
a parafina brinca
o pavio queima

beijamos muito
no quarto iluminado
brincamos feito serpentina

agora se vê:
vamos descendo

agora se vê:
o branco das velas

descendo úmido
no aroma ascendente 
dos corpos


noites de carnaval, noites - poema de Rogel Samuel
(para Jefferson Bessa)

noites de carnaval, noites
de ruidoso amor
o baticum dos tambores
africanos
os humores eróticos
os tremores requebrados
passistas apressados
nas noites de antigos
carnavais
perfume de lança-perfumes
inebriantes 
fontes
danças de estrelas
na batalha de confetes

requebros noturnos
ruas apertadas
portas abertas

noites de carnaval, noites
de luar


25 de out. de 2013

O e-livro no site Entretextos

O site Entretextos divulgou o e-livro "Nos úmidos planos das mãos". Abaixo está o comentário do site. Para acessar clique aqui. Sempre grato!





Jefferson Bessa é poeta. Já conquistou seu "leitorado", mas como o escritor - ou melhor, a obra que escreve e reescreve - vive do contato verbo-auditivo-visual com os leitores, Entretextos apresenta e-livro de Jefferson Bessa. Quem não leu ainda não sabe o que deixa de degustar. Bom apetite!


16 de out. de 2013

MANCHA


I

mancha de tamanho médio
ferimento castanho, visto 
no lado amarelo da maçã

madura, de pouco vermelho
passou o tempo sem pecado
pois na pele rugosa bem vive

vê-la apenas é pouco, mais:
tocá-la e desligar significados
mordê-la e nos deixar dentro

II

e a mancha que no início
se mostrou muito evidente
como uma pancada no olho?

é o primeiro sinal do maduro?
ou a grande onda de um 
marinheiro de primeira viagem? 

quem viaja não tem escolha
leva e traz no rosto a mancha
castanha, vermelha, amarela

29 de set. de 2013

BRINCO



Este poema faz parte do grupo Carne e vendaval de Carnaval. Ao clicar neste título em Marcadores (na coluna ao lado), os outros poemas poderão ser lidos. 

brinco
me fantasio.
ponho um brinco
em círculo
me enlaço
aos abraços

brinco
simples criança
louco, poeta
ponho um verso
colar no pescoço:
me enrosco
no seu rosto



12 de set. de 2013

NU nº 5


ver já cansou
porque não se entra mais
no templo
de ver na contemplação

mas se ergue logo 
em sentir
quando vem a ser nu
assim no escuro

logo sentir acontece
sem luz e na luz
de tocar, de encostar

nas mãos há muitos sins

24 de ago. de 2013

O POETA PULA COMO O CARNAVAL

Este poema faz parte do grupo Carne e vendaval de Carnaval. Ao clicar neste título em Marcadores (na coluna ao lado), os outros poemas poderão ser lidos. 


o poeta pula como o carnaval
do meio-fio para o meio da rua, 
o poeta pula como o carnaval
para o meio do mundo.
pula de fevereiro para o meio do ano!
pula o verso e no chão se faz
e no meio sempre vai passar.
pula de um extremo ao outro.
e para quem pensa que vai passar
que vai voltar ao normal, pois passa
e que pro meio-fio vamos voltar
grande engano! O verso e a festa 
seguem ao largo, passeando
claramente às escondidas.

6 de ago. de 2013

EU UM BARRACO SUSPENSO


agora deram pra me olhar
eu um barraco suspenso
no morro de qualquer cidade.
visto de todos os lados sou
uma porta que mal abre
já caída se quiser fechar

sob vento sob chuva
sob sol e sob olhares
eu aqui tão sob, tão sub
eu um barraco em linhas
de tábuas e letras e tosco

um dia desse cai de vez
ou melhor, eu mesmo 
armo aqui um barraco
e vou quebrar o barraco
pra fazer cair de vez

eu um barraco no asfalto
faço linhas sem engenho
sem arquiteto, bem torto
por pouco não desabo

se falar mais alto cai
de uma só vez, sem esforço.
sem esforço, sem polidez
esses versos são tábuas
mal cortadas, sem verniz

eu um barraco na cobertura
de frente pro mar de fios
e telefones e carros-carroças.
tudo capengando em belezas
de quem só age pra comprar 

ah, sou mesmo é um barraco.
muitos são os barracos por aí.
pregos soltos e enferrujados
que até pra soltar os bichos
tropeçam e se desmontam

se alguém chegar pra exibir
tudo isso na tevê, já sei:
eu que sempre vivi de má fama
não fará diferença alguma.
vou xingar, blasfemar, vou
chegar bêbado, vou gargalhar

tão fraco e tolo sob telhas
entre tijolo e madeiras velhas.
agora me inventaram pros olhos
exóticos; e são de uma bondade
de tirar algumas fotografias
para me guardar na máquina

fazem pra cá viagens doentes
para ver outro enfermo - 
eu e outro - viagem de bobo
em aventuras de fotografar
a sua e a minha desventura

lembrança mórbida de quem
na memória já é um enfermo.
gente falsa; gente que se diz
de alteridade e de caridade

deveriam dar um trato nos olhos
nessas manias de guardar.
pro espaço essa gente toda!
eu um barraco que não habita
mas que dura assim enferrujado


20 de jul. de 2013

ERA UM CASAL BEM FANTASIADO

Este poema faz parte do grupo Carne e vendaval de Carnaval. Ao clicar neste título em Marcadores (na coluna ao lado), os outros poemas poderão ser lidos. 


lá estão vindo os dois
todos olhavam atentos.
um casal bem fantasiado
estavam de ricos e chiques.
passavam dando chiliques
viravam o rosto, o nariz
num olhar de só frescura.
o homem tinha na fantasia
um carro bem caro, claro!
passava ele com olhar alto
dentro de um carro importado
e, por isso, passava por cima
de todos e de tudo, era rico!
e o povo ria e vaiava
e o povo reclamava
e o povo gargalhava.
no carro havia um informe:
"cheguei de avião particular
descemos no meio desta rua
e o povo inteiro teve que parar".
e a mulher dizia: "eu vim de iate
cheguei hoje para o carnaval
depois de muitas viagens que fiz.
nem sei por que vim a essa pobreza!
saiam da frente, saiam da frente".
queria passar por cima de todos
usava perfume francês 
e vestia um roupa caríssima
mas que havia sido rasgada
pela queda numa rua dessas.
e as pessoas riam.
ela respondeu: não debochem 
se não deixo de fazer caridades.
e o povo ria e vaiava
e o povo reclamava
e o povo gargalhava.

5 de jul. de 2013

DISSE PRA ME ESPERAR

Este poema faz parte do grupo Carne e vendaval de Carnaval. Ao clicar neste título em Marcadores (na coluna ao lado), os outros poemas poderão ser lidos. 


Disse pra me esperar
Mas desceu a ladeira
Te vejo agora de longe.
Não quis me esperar
Fiquei assim sem eira
Nem beira e de monge
Fantasiado ao seu lado
Dança teu novo amor.
Mas agora não espero

Amor vai passando...
Vou descer a ladeira.
A chuva começou
Desmanchou o desespero.
Agora vou descendo...
No som da violeira
Vamos chovendo
Molhando e descendo
No acaso do Amor.