27 de jan. de 2013

HOJE TEU CORPO NÃO SE APROXIMOU



hoje teu corpo não se aproximou
se fixou na exibição de ter corpo
se deitou solitário sobre a cama
esteve comigo, mas não foi corpo

me fez até buscar o que não se busca
procurei o que não se deve esconder
se fixou tanto na tua beleza de vitrine
que congelou o que no corpo é errante

17 de jan. de 2013

O MUNDO E O FIM



nas vozes se ouve um túmulo
desejado por muitos séculos.
tornou-se pedra nas entranhas.

para essas vozes que dizem
sempre as finalidades de tudo,
fácil é deduzir que desejam

uma finalidade para o mundo:
basta lembrar as conclusões
os resultados, os juízos finais.

como respiram diversas destruições,
a finalidade do mundo deve ser
uma, a que põe termo em tudo:

o fim do mundo.


21 de dez. de 2012

BEIJO



não pense 
muito
não pense 
no antes
no depois 
do beijo.
pense 
pouco

sabemos 
de tão pouco
mas juntos 
sabemos 
por esse pouco 
que é muito

por ele 
se conhece
por ele te sei 
por isso me sabe
basta ver 
ouvir

sabemos 
um do outro
nesse tudo
que é pouco

não pense 
muito
não pense 
no antes
no depois 
do beijo.
pense 
pouco


4 de dez. de 2012

ME LEMBRO BEM CLARO



me lembro bem claro
te levo aqui perto 
agora bem nas mãos

ausente, pois te vi
ontem passou por mim
e agora ainda vejo

ter visto se espalha
e passa por entre mãos, 
olhos, boca e pescoço

me lembro bem claro
os olhos te guardam
aberto nas retinas

te levo e tua imagem
agora me vem presente
dentro da mão me deita

17 de nov. de 2012

SALDO ANUAL



sim, a economia do país cresce
mas nas contas que fizemos
grande parte vem das maravilhas,
das ilhas, das filhas, das meninas.
mas também dos meninos, dos físicos,
dos ares afrodisíacos.
sim, nas contas que fizemos
o afro que se lê em afrodisíaco
provém das rendas de Afrodite.
não, no balanço dessas contas
tivemos de fazer a retificação:
o afro somado ao tempo
nos dá o resultado de que afro
deve ser calculado com africano,
assim, o saldo se afasta dos gregos.
para chegarmos ao verdadeiro saldo:
temos que somar o gringo 
mais o povo que para ele vem rindo
mais as correntes que nos prendem.
sim, a economia do país cresce.

(2012)

30 de out. de 2012

SE BUSCASSE NOS FATOS DA MINHA VIDA



se buscasse nos fatos da minha vida,
da minha biografia
nada teria o que pôr em versos.
escreveria talvez um quarteto 
um terceto, um dístico
com os nomes da rua em que morei,
mas em mim o que são nomes de rua?
se buscasse nos dias de semana
quem sou ou fui ou faço
escreveria dois versos 
ou nem um.

12 de out. de 2012

NOS DIAS DO CANSAÇO EM OLHAR



nos dias do cansaço em olhar
as ruas, os andares, os cabelos
os jornais, as fotos, os carros
depois de tanto olhar arrastado
para te ver deixo a escuridão
bem firme como uma presença

o que não se olha não nos leva
à terra alguma longe desta,
estamos juntos, bem próximos.
pouco se imagina e se pensa,
os olhos se cansaram por hoje
e na escuridão sentimos bem

ouvimos claro o que se tem,
pois aqui a noite não é ausência
de luz de não sabermos sentir.
de olhos cerrados a luz se abre
as mãos se abrem, iluminando
o ver dos dedos no teu corpo

O poema Quem tem nas mãos um poema foi divulgado no blog Poetas de Marte. Para visitar, clique aqui.

24 de set. de 2012

LICENÇA POÉTICA




Não peço licença para escrever.
Mas me enviaram
Um documento que me autoriza a escrever
Do modo como eu quiser.
Mas quem o pediu?
Não fui eu.
O oficial à minha porta, impaciente comigo,
Me ordenou que assinasse o papel,
Para confirmar que estou ciente.
Não estou ciente, nem consciente,
Nem conheço esse tipo de ciência em mim.

(Bateram à minha porta
Mas nunca fui à porta dos gramáticos.
Seria como ir à prefeitura da cidade
Receber uma licença para escrever)

Volte com este documento!
Diga que quando escrevo
Não faço nenhum desregramento
Nenhum desvio,
Por que, então, receber essas licenças?
Para liberdades de sintaxe?
Para amplitudes semânticas?
Para possibilidades fonológicas e morfológicas?

Não assinarei o que nunca pedi,
Diga à prefeitura dos gramáticos
Que sou como se não existisse.
Melhor assim do que existir
Sob licença por ser quem sofre de desvios
Concedidos por proprietários da língua.

Quando se escreve não se recebem
Licenças de uso ou de renovação.
Apenas quero escrever poemas
Mas me perdi escrevendo
Das grandes concessões gramaticais...


5 de set. de 2012

SÓ COM O MUNDO TODO



Na curva, na calçada
no meio de todo mundo
no meio, sempre no meio
do mundo, do povo, da rua
andamos com o Só

No quarto recolhido
se escreve o Só
a sós com o mundo todo

Não se deve excluir o Só
mas sustentá-lo à mostra
como ferida aberta de pé

No estar do meio de tudo
somos pontos de muitos
só(i)s pequenos, errantes
iluminando as diferenças
sem drama ou clausura

Na rua cada um é uma ilha
onde os Sós se fazem um Só

21 de ago. de 2012

QUANDO OUVIR FALAR EM CALOR



(quando ouvir falar em calor
- bastante atenção - não separe
o ardor a que um só pertence)
sim, podemos sentir mais forte
um dia junto a outro corpo
- não deixamos de sentir -

mas não pense em simples calor
o da hora, do quarto, da roupa.
não pense em beijo de novela,
em ondas de calor de menopausa
em calor da espera em fila
em ventos de meteorologia

o que aqui se faz sentir
se deixa deitar e transpassar
o quente por entre mãos.
não veja por ver - atenção -
os olhos de quem realmente vê
vê pelo quente das retinas

6 de ago. de 2012

UM DIA ME PERGUNTOU QUE CAMINHO VOU SEGUIR


um dia me perguntou que caminho vou seguir.
estávamos juntos quando me perguntou
por que agora vai sair?
lhe disse sempre saímos, porque entramos.
no entanto, lhe pedi para lembrar
se lembra daquele instante
insistiu
me perguntou para onde vai seguir
por que agora decide sair?
lhe pedi, então, para se lembrar
nunca entrei
por isso não estou saindo
  
(Amor nos segue assim
sem o peso de entradas, saídas
sem abrir ou fechar.
Amor é ignorante
de maçanetas, ferrolhos
de trincos, segredos)

me perguntou por que não entrei.
respondi, então, quem insiste em entrar
nunca, nunca entra
porque Amor é que não entra nunca.
às vezes Ele se senta à porta
mas, errante que é, não entra

na última hora, quis saber ainda
mas Amor passou,
sem contar as luas que passaram
me levou

21 de jul. de 2012

POEMA NU nº 3


se distancia, mais longe embaça 
a distância não engana
depois da fumaça não te busco 


em ar de sombras te vejo certo
na visão que em mim te oscila
em linhas que molham ao longe


sobre a cama se deitam os olhos
por dentro d'água as mãos
por entre os vidros tua nudez


indo e vindo tão lento aos olhos
eu, deitado, não te vejo incerto
te vejo plenamente em banho



AGRADEÇO À AMIGA MIRZE PELA DIVULGAÇÃO DESTE POEMA (NU Nº 3) EM SEU BLOG. PARA VISITAR, CLIQUE AQUI.