17 de nov. de 2012

SALDO ANUAL



sim, a economia do país cresce
mas nas contas que fizemos
grande parte vem das maravilhas,
das ilhas, das filhas, das meninas.
mas também dos meninos, dos físicos,
dos ares afrodisíacos.
sim, nas contas que fizemos
o afro que se lê em afrodisíaco
provém das rendas de Afrodite.
não, no balanço dessas contas
tivemos de fazer a retificação:
o afro somado ao tempo
nos dá o resultado de que afro
deve ser calculado com africano,
assim, o saldo se afasta dos gregos.
para chegarmos ao verdadeiro saldo:
temos que somar o gringo 
mais o povo que para ele vem rindo
mais as correntes que nos prendem.
sim, a economia do país cresce.

(2012)

30 de out. de 2012

SE BUSCASSE NOS FATOS DA MINHA VIDA



se buscasse nos fatos da minha vida,
da minha biografia
nada teria o que pôr em versos.
escreveria talvez um quarteto 
um terceto, um dístico
com os nomes da rua em que morei,
mas em mim o que são nomes de rua?
se buscasse nos dias de semana
quem sou ou fui ou faço
escreveria dois versos 
ou nem um.

12 de out. de 2012

NOS DIAS DO CANSAÇO EM OLHAR



nos dias do cansaço em olhar
as ruas, os andares, os cabelos
os jornais, as fotos, os carros
depois de tanto olhar arrastado
para te ver deixo a escuridão
bem firme como uma presença

o que não se olha não nos leva
à terra alguma longe desta,
estamos juntos, bem próximos.
pouco se imagina e se pensa,
os olhos se cansaram por hoje
e na escuridão sentimos bem

ouvimos claro o que se tem,
pois aqui a noite não é ausência
de luz de não sabermos sentir.
de olhos cerrados a luz se abre
as mãos se abrem, iluminando
o ver dos dedos no teu corpo

O poema Quem tem nas mãos um poema foi divulgado no blog Poetas de Marte. Para visitar, clique aqui.

24 de set. de 2012

LICENÇA POÉTICA




Não peço licença para escrever.
Mas me enviaram
Um documento que me autoriza a escrever
Do modo como eu quiser.
Mas quem o pediu?
Não fui eu.
O oficial à minha porta, impaciente comigo,
Me ordenou que assinasse o papel,
Para confirmar que estou ciente.
Não estou ciente, nem consciente,
Nem conheço esse tipo de ciência em mim.

(Bateram à minha porta
Mas nunca fui à porta dos gramáticos.
Seria como ir à prefeitura da cidade
Receber uma licença para escrever)

Volte com este documento!
Diga que quando escrevo
Não faço nenhum desregramento
Nenhum desvio,
Por que, então, receber essas licenças?
Para liberdades de sintaxe?
Para amplitudes semânticas?
Para possibilidades fonológicas e morfológicas?

Não assinarei o que nunca pedi,
Diga à prefeitura dos gramáticos
Que sou como se não existisse.
Melhor assim do que existir
Sob licença por ser quem sofre de desvios
Concedidos por proprietários da língua.

Quando se escreve não se recebem
Licenças de uso ou de renovação.
Apenas quero escrever poemas
Mas me perdi escrevendo
Das grandes concessões gramaticais...


5 de set. de 2012

SÓ COM O MUNDO TODO



Na curva, na calçada
no meio de todo mundo
no meio, sempre no meio
do mundo, do povo, da rua
andamos com o Só

No quarto recolhido
se escreve o Só
a sós com o mundo todo

Não se deve excluir o Só
mas sustentá-lo à mostra
como ferida aberta de pé

No estar do meio de tudo
somos pontos de muitos
só(i)s pequenos, errantes
iluminando as diferenças
sem drama ou clausura

Na rua cada um é uma ilha
onde os Sós se fazem um Só

21 de ago. de 2012

QUANDO OUVIR FALAR EM CALOR



(quando ouvir falar em calor
- bastante atenção - não separe
o ardor a que um só pertence)
sim, podemos sentir mais forte
um dia junto a outro corpo
- não deixamos de sentir -

mas não pense em simples calor
o da hora, do quarto, da roupa.
não pense em beijo de novela,
em ondas de calor de menopausa
em calor da espera em fila
em ventos de meteorologia

o que aqui se faz sentir
se deixa deitar e transpassar
o quente por entre mãos.
não veja por ver - atenção -
os olhos de quem realmente vê
vê pelo quente das retinas

6 de ago. de 2012

UM DIA ME PERGUNTOU QUE CAMINHO VOU SEGUIR


um dia me perguntou que caminho vou seguir.
estávamos juntos quando me perguntou
por que agora vai sair?
lhe disse sempre saímos, porque entramos.
no entanto, lhe pedi para lembrar
se lembra daquele instante
insistiu
me perguntou para onde vai seguir
por que agora decide sair?
lhe pedi, então, para se lembrar
nunca entrei
por isso não estou saindo
  
(Amor nos segue assim
sem o peso de entradas, saídas
sem abrir ou fechar.
Amor é ignorante
de maçanetas, ferrolhos
de trincos, segredos)

me perguntou por que não entrei.
respondi, então, quem insiste em entrar
nunca, nunca entra
porque Amor é que não entra nunca.
às vezes Ele se senta à porta
mas, errante que é, não entra

na última hora, quis saber ainda
mas Amor passou,
sem contar as luas que passaram
me levou

21 de jul. de 2012

POEMA NU nº 3


se distancia, mais longe embaça 
a distância não engana
depois da fumaça não te busco 


em ar de sombras te vejo certo
na visão que em mim te oscila
em linhas que molham ao longe


sobre a cama se deitam os olhos
por dentro d'água as mãos
por entre os vidros tua nudez


indo e vindo tão lento aos olhos
eu, deitado, não te vejo incerto
te vejo plenamente em banho



AGRADEÇO À AMIGA MIRZE PELA DIVULGAÇÃO DESTE POEMA (NU Nº 3) EM SEU BLOG. PARA VISITAR, CLIQUE AQUI.

2 de jul. de 2012

HOJE VOU ESCREVER LUA



nova que passa e vai
cheia de prata e azul
míngua de noite e de mim.
crescente sem trabalho
sem vontade de ser vista
sem força, brilho, fantasia.
sem, a lua sempre sem
que nem sabe que vem
e não sabe que é sem.
mas não sei em que vento
parei, em que curva estacionei
mas hoje vou escrever lua
será sem também,
sem querer outra coisa
a não ser isto
(palavra prata que não para)

22 de jun. de 2012

"NOS ÚMIDOS PLANOS DAS MÃOS": E-LIVRO DE JEFFERSON BESSA



Amigos, esta postagem é para divulgar o ebook com meus poemas. Só tenho a agradecer o excelente trabalho do Castanha Mecânica. É uma satisfação participar deste projeto. Para baixar o livro ou ler online, clique aqui.

19 de jun. de 2012

SEMPRE ME PEDEM, PEDEM QUALQUER COISA


sempre me pedem
pedem qualquer coisa
me pedem os conhecidos e os desconhecidos
os necessitados e os não necessitados 
os ricos e os pobres:
os ricos me pedem um serviço pronto
os pobres, um trabalho, uma moeda


sempre me pedem 
me pedem até mesmo para pedir a Deus.
mas onde estará o altar?
ah, persistem em andar 
pela cidade dos joelhos acimentados
cidade ajoelhada a um templo que mal se vê 
bem longe no alto de um morro


mas do chão grande e suja
se ergue a mão do mendigo
e saem dos guichês mãos cobradoras
os funcionários me cobram as entradas
não os conheço pelo rosto
mas os conheço precisamente pela mão
que não se diferencia da mão 
pedinte a casamentos
(são mãos exigentes de recibo!)


em meio a tantos pedidos
me torno a partir de agora
um pedinte - um desses grandes pedintes.
quando alguém vier me pedir para ouvir
para falar, 
para gargalhar,
para comer
ou comparecer
direi que, nesse mundo constituído de petições,
todos deverão esperar.
pode ser até mesmo um mandado institucional 
também deverá esperar,
pois espero aqui a resposta
de um pedido 
acabei de pedir às coisas 
uma palavra
um verso
uma rima
um poema


nesses momentos tenho uma concepção
uma grande unidade de ideia
influenciado pelas moças de escritório
quem em linguagem burocrata dizem
“qual seria a sua solicitação, senhor?”
por influência, isso caberia numa única sentença
seria a pura essência ao largo das aparências:
quando chegar a hora 
de ouvir um pedido
compreenderei
“a vida é uma solicitação”!

6 de jun. de 2012

ME DIZ QUE AMA SIM


Me diz que ama sim
Mas amar não mais o engana.
Me diz que ama certamente
Mas sem muita intensidade.
Meu caro, como assim
Me diz logo de cara com 
Meras e outras palavras que se
Mantém e ama sem nenhuma graça?

(Mal de gente que não bebe vinho, de 
Melindres suspeitos de quem vive
Mundos que na boca põe apenas
Meias palavras, meias línguas e meios beijos.
Miséria essa sem nenhuma sensação
Menta falsa de frescor fino de mausoléu.
Mestre, mestre de amor e de equívocos.
Me diz que de tudo já viu, já sonhou.
Me diz que ama sim
Mas quem acreditaria ao sentir essa
Mirra forte de igreja velha,
Mina desbotada de ouro velho,
Maneiras capengas de admiração,
Matusalém de sussurros determinados?)

Me venham amores que saibam beber
Mil luzes literais e musicais de voz
Mas sem as preocupações de ser
Meteoros ou constelações ou medos.
Minha calma e essa de um corpo
Mil carrancas afastarão sem ouvir esse
Muxoxo desdenhoso de amar.