17 de jul. de 2016

VOLTAR



voltar a este quarto
às cortinas
à janela
às toalhas
à cama
voltar ao espelho
voltar como sempre
ao mesmo deste lugar

foi nesta hora
que quase me deixei
ser o mesmo
com os objetos do quarto.
por um momento
quase deixei o beijo
como um passado
e me lancei a dormir
o sono de olhares iguais.
por pouco não me estendi
sobre a cama como roupas
penduradas em cabide.
mas foram essas roupas
as últimas coisas iguais

agora volto
como se estivesse indo
porque tua nudez,
tua pele, teus beijos,
teus dedos e abraços
o moreno do odor de teus braços
me fizeram voltar

como se nada fosse antes

Jefferson Bessa
Do livro Chão da pele (2015) 

18 de jun. de 2016

ARARA OU ARAGUAIA

A Rogel Samuel

quando a saliva resseca 
com o sal da água do mar que escama,
a audição afasta a náusea,
pois rios e voos ecoam de lá
descem e ressoam entre pedras.
asas e águas perpassam 
e falam arara ou araguaia.
o úmido na língua se deixa
aguando em doce de rio
engrandece plumas que reluzem 

elas deságuam na boca 
escorrem e não engasgam
passam ao vento como pôr do sol de janeiro
e brilham vermelho de lua entardecendo

aguadas araras e araguaias -
há um atraso na língua quando as diz,
pois tardam em suas tardes
amanhecem tardemente em vermelha arara
anoitecem azulantes na corrente da araguaia

13 de mai. de 2016

BASTA SE SENTAR À MINHA FRENTE




basta se sentar à minha frente
nem preciso chegar pela mão
porque sei tocar bem leve,
meus olhos aprenderam a ver.
chegam muito discretamente
num gesto de pequena violação
a quem gosto e não sabe ver
na cisma de traje que o preserve


do que os olhos podem alcançar
o outro pode não ter conhecimento
mas sob a linha da visão existe
o que se pode sentir na textura:
desliza sobre a pele, sabe deitar
no macio áspero e no tocar lento
que desce num tempo que dura.
pra se ver é que um corpo existe


Jefferson Bessa
Do livro Chão da pele (2015)

26 de abr. de 2016

ME LEMBRO BEM CLARO


me lembro bem claro
te levo aqui perto
agora bem nas mãos

ausente, pois te vi
ontem passou por mim
e agora ainda vejo

ter visto se espalha
e passa por entre mãos,
olhos, boca e pescoço

me lembro bem claro
os olhos te guardam
aberto nas retinas

te levo e tua imagem
agora me vem presente
dentro da mão me deita


Jefferson Bessa
Do e-livro Chão da pele (2016)

2 de abr. de 2016

NU Nº4



a nudez clareia sozinha. 
quantas vezes me disse 
se não houvesse roupa 
não haveria nudez alguma, 
que o tecido de desnudar 
veste a existência da nudez. 

sua voz quando isso diz 
se esconde, se esquece 
de ver nos olhos a centelha 
do corpo no simples ver. 
veja: não vela nem desvela 
a nudez se desnuda sozinha.


Jefferson Bessa.
Do e-livro Chão da pele (2015)

6 de mar. de 2016

NU Nº 3

NU Nº 3


se distancia, mais longe embaça 
a distância não engana 
depois da fumaça não te busco 

em ar de sombras te vejo certo 
na visão que em mim te oscila 
em linhas que molham ao longe 

sobre a cama se deitam os olhos 
por dentro d'água as mãos 
por entre os vidros tua nudez 

indo e vindo tão lento aos olhos 
deitado, não te vejo incerto 
te vejo plenamente em banho

Jefferson Bessa
Do e-livro Chão da pele (2015) 

21 de fev. de 2016

NU Nº 2

NU N º 2




não era o sono de quem dorme 
mas o sono de quem olhava 

de olhos cerrados acenou-me 
o corpo em relevo se deitava 

os olhos de repente não viam 
eram mãos como areia molhada 

em umidade os olhos escorregavam 
delineando um gesto feito onda 

nos traços do outro que agora sou 
não apenas transpiro ao teu lado: 

o meu corpo em rio repousou 
na nudez de teu corpo deitado


Jefferson Bessa
Do e-livro Chão da pele (2015)

31 de jan. de 2016

PASSANDO PELA RUA: POEMA DO LIVRO 'CHÃO DA PELE'

PASSANDO PELA RUA

passam dois, quatro, seis olhos
me olham
como se quisessem descobrir
o que no instante reluz

provável que tenham no desejo
o que dos meus olhos escapa

(poderia pensar que me vigiam
ou me convocam.
no entanto, essas oscilações
não importam

poderiam me julgar que eu nos olhos
do meu sujeito exacerbado
vejo os olhos alheios
por dentro dos meus)

alguns podem não ter consciência
e sentem no olhar,
mas outros sabem
pelo imediato do olhar
o que seu também sabe sentir

é que os corpos acordam
ao encontro dos que passam,
por isso se dá passagem
à transpiração entre olhos:

na verdade, quem vejo
quem me vê
é o Amor de minutos atrás
no corpo ainda sinto
e aos olhos se revela
translucidamente


Jefferson Bessa
Do e-livro Chão da pele (2015)


22 de dez. de 2015

NU Nº 1

NU Nº 1


deslizar a nudez de muitos corpos
desenrolar olhares na audição do traço braçal
e andar por muitas pernas
delineando todas as partes com o dedo - como quando se pinta cores

se agarrar em muitas mãos e as passaria no corpo
como as águas descem
como um escultor por mil vezes sentindo a pedra

se esqueça de mim sem pose
quem vê é o corpo do meu olho rolando como pedras

submersas ... soltas
neste rio


Jefferson Bessa
Do e-livro Chão da pele (2015)

14 de nov. de 2015

CHÃO DA PELE: SEGUNDO E-LIVRO DE JEFFERSON BESSA



Chão da pele é o segundo e-livro de poesias de Jefferson Bessa. CLIQUE NA IMAGEM PARA LER

14 de out. de 2015

BASTOU PASSAR À BEIRA-MAR


bastou passar à beira-mar
ver atento, ouvir o zumbido,
limpar o banho, o ar, a praia
ver sem brilho e bronzeado.

depois de o sol descer e arder
os olhos viam vermelhos de sal
eram de brasa salina, sanguínea
e não tingiu o rosto do banhista.

mas se podia ver o mar temível
extraindo pernas braços olhos.
o mar - o grande mar - era recuo
permanente nesta sua crescente.

arrastou - e arrasta - banhistas
interessados no lazer dos dias,
mas o mar inundava de sangue
marinho, vinha de águas trazidas

era o sangue de quem chega
o sangue marítimo de extração
o sangue de túmulos de ouro
o sangue de assassinos heróis.

sim, digo que de mim arrastam 
o vermelho de lágrimas e alergias
e o vermelho que tinge o rosto 
de tanto rir de quem na praia fica. 

4 de set. de 2015

O FOGO

A Francisco Brennand *

o fogo se sente ao chegar
pois à vista tudo cresce
mas a plenitude de arder
como sempre está por vir
no forno queima ao entrar.

forno de fogo invisível
escuro claramente feito
por isso também visível:
faíscas de ruínas refeitas.

pela escuridão das paredes
se entra em uma caverna
- fornada - e nela se queima
pois tem paredes de carne
negra vermelha cerâmica.

quem não entra em vapor
na noite desta iluminação
mais luz não poderá ver.
quem sente o intenso calor
esquece a luz do visto antes
para acender o ver depois:
seu escuro o corpo clareia
sente-se oleiro: se faz no feito
pois refeito - feitiço do fogo.

na epiderme fagulham argilas
em água, em ar de conversão.
brasando entre pele e visão
quem entra se desfaz refaz
feito jarro de santuário viver
pois se obra do direto fogo.

no hálito de magia fagulha
acende-se num fio de fogo:
do escuro ruínas se erguem
das cinzas o barro se refaz
e sair se refaz feito entrar:
o que se abre na escuridão
refaz na alma o vir à luz
no oval dos arcos do céu.

mas a plenitude de arder
já que sempre está por vir
queimará ao sair do forno:
o que obra nos faz ovular
pois transfunde todo o ser.


* Na cidadela de barro do artista, existe um forno que foi mantido como parte do museu.