5 de mai. de 2012

UM TEMPO QUE VIVE


quero um verbo
urgentemente um verbo
com um aspecto temporal
que não vive num antes
mas num depois:
um depois que vive
do anterior de um futuro

não darão origem a este verbo os gramáticos?!
não darão origem a este tempo os filósofos?!
não me venham com futuro do pretérito!
nem com experiência de tempo interior!

onde está esse verbo?
esse tempo?
estão eles aqui
os vejo à minha frente
acontecem no que aconteceu
dentro do que acontecerá

(haverá quem diga que não existe
nem existirá este verbo.
haverá quem diga que seria
um mero pretérito do futuro
(a inversão de um tempo já existente).
no entanto, senhores, quem vê pelo estranho do olhar
qualquer coisa - a coisa mais simples - se torna apenas uma inversão.
o que fazer de olhos anteriores a uma anterioridade?!
o que fazer de pés que andam nos pretéritos
mais que perfeitos pés?!

quem tem nos passos apenas o estagnado
quem praticamente já não anda mais
quem vai no atrás da passagem
poderá resmungar deste tempo
que não se pode ver
um depois que vive
do anterior de um futuro)

mas já nenhuma falta me faz 
a compreensão deste verbo

pois esse tempo vive firme
no poema que com ele se escreve

16 de abr. de 2012

LIQUIDAR


me tenho como comprado
numa loja

me tenho como vendido
em liquidação

serei lucro ou prejuízo
nesta cidade estocado
nesta caixa abafado?

nessas horas me aniquilo
feito líquido, desfeito
em queima de estoque

me compro por tão barato
me dou por tão vendido
me dou por visível em vitrine
me vendo praticamente de graça
a quem quiser

digo olá
a quem me segurar 
como as alças de uma sacola

a verdade é que não sou 
lucro ou prejuízo,
no ajuste de contas
sou mero saldo
do que fazem de mim


6 de abr. de 2012

POEMAS



I

que nau ainda segue?
mas nado feito peixe

que nau ainda comanda?
mas nado e salto à contraonda
sem a ordem de almirantes

para isso, sejamos peixes
ágeis, saltemos rápidos
ilesos ao chicote dos cabos

sejamos de altos pulos
peixes velozes
para quando do pulo
deixarmos ver ao céu
as embarcações aéreas

sejamos peixes
interligados
peixes navegantes
sem naves, navios
mas peixes de ver
de pular mais alto
que qualquer mastro


II

como à beira mar
à beira tela nós sentamos

depois de mais tantos navios
chegou mais uma tripulação
mas no ar esvaneceu-se

ninguém quis ver as micro-ondas
e o ninguém ficou a ver navios


Os dois poemas fazem parte de A minha letra é outra

28 de mar. de 2012

PELE PALAVRA

Pele palavra
temperada
quente de lava
salobra
fria de água

Antes de sagrada
a palavra
amarga
ou amada
arrasta ou lisa

Grava olhos
lavra pele
lava mãos
leve ou pesa
da mente
passa

A silêncio
quando dita é
contradita
no extremo
da língua,
vira cravo
nos dentes
como fruto
na boca

A razão salga
açúcar
desterrada no céu
da boca.
revirada
jorra
fricativa e arranha
o risco dos píncaros
de pensar

No tato a palavra
sabe pó
e minério
revira esférica
revoa branda
sabe tudo
e nada


Nos pés
estala pedra
e erva
bate grave
recaída
na terra

Não diz nunca
não

22 de mar. de 2012

As regras para arte resultam em tédio



As regras para arte resultam em tédio. Por isso, a forma em arte corre o risco de ser um fastio se for transposta a regras. No entanto, pela forma mais antiga de fazer versos se pode fazer uma belo poema, desde que nele tenha alguma coisa de vivo ao se ler. O vivo a que se refere seria ler o poema como pela primeira vez, ler o poema como se fosse novo.



16 de mar. de 2012

AS CIDADES E OS RIOS

existem rios nas cidades
mas não são rios
não passam
não seguem
estagnados


por isso, a cidade não passa
vive extensa
num estacionamento
do tamanho dela mesma


sem o tempo dos rios
nada escoa
a cidade não passa
as pessoas param


(estranhas de nome,
as cidades não fluem
essas fluminenses e outras
não fluem


de que nos vale
um Rio em nome escrito
se travada em letra
sua palavra não escoa
pois feito poça
parou sem sua água?)


passamos sobre rios e pontes 
mas sob os olhos
nenhum rio nos passa.
ninguém passa por uma cidade
se antes um rio
por ela não passar

29 de fev. de 2012

ESQUINAS

a esquina da rua de cima
larga
e só,
esquina grande
mas só

do outro lado
a esquina da rua de baixo
curta, breve

uma era em medida
tão grande
como tão pequena
era aquela esquina
de baixo

mas há uma curva
em cada uma
uma curva sem mesura

a de cima
continua lá
estática
grande

mas a curva de baixo
a pequena
a de baixo
grande se vê:

sabemos da verdade
que deixamos na curva
da esquina
de baixo

verdade visível
grande
palpável
feita da mesma espessura
que se conhece o outro

feita do mesmo arco
que se desenha a mão
na grandeza de tocar

17 de fev. de 2012

QUEM TEM NAS MÃOS UM POEMA


quem tem nas mãos um poema
não segura um deus, é certo!
mas quem o tem aos olhos
não deve vê-lo como assistir tv

não o leia como comer biscoitos
no passatempo vazio de esquecer,
nem como quem para fingir a dor
ingere remédio de efeito efêmero

um poema faz esquecer de vez
depois de o ler é para sempre.
não se volta, não distrai a hora
do tédio de pensar no dia seguinte

a marca que se lê não se perde
mas lembra no momento de hoje.
o prazer que pode ler um verso
vem de comer na verdade da fome



3 de fev. de 2012

PASSANDO PELA RUA


passam dois, quatro, seis olhos
me olham
como se quisessem descobrir
o que no instante reluz

provável que tenham no desejo
o que dos meus olhos escapa

(poderia pensar que me vigiam
ou me convocam.
no entanto, essas oscilações
não importam

poderiam me julgar que eu nos olhos
do meu sujeito exacerbado
vejo os olhos alheios
por dentro dos meus)

alguns podem não ter consciência
e sentem no olhar,
mas outros sabem
pelo imediato do olhar
o que seu também sabe sentir

é que os corpos acordam
ao encontro dos que passam,
por isso se dá passagem
à transpiração entre olhos:

na verdade, quem vejo
quem me vê
é o Amor de minutos atrás
no corpo ainda sinto
e aos olhos se revela
translucidamente

23 de jan. de 2012

PARTÍCULAS DE SONHO


tem dias que se sonha menos
que um sonho qualquer

tem dias que se sonha mais
que o sonho dos sonhos
mais elevados

tem dias que se sonha menos
do que sonham
aqueles que pensam
que nada sonham

mas tem dias que os mesmos
sonhos são sonhados
por todos em um sonho

os sonhos sabem sonhar o nada
o tudo e o mesmo

sabem sonhar de mais
e de menos
sabem sonhar em massa

tem dias em que o sonho
firme nas alturas
sonha só:
independente de nós
que o sonhamos

11 de jan. de 2012

ÂNIMA


para ter o que anima
não me basta sentir que basto
não me basta saber do invisível que me move
o invisível que há em mim, sozinho, não me anima.
se assim fosse, seria eu um satélite
em posição tão longínqua
que, sozinho, ficaria vagando
num espaço sem poder receber
um simples sinal.
ficaria girando e girando
para, depois de tão tonto,
explodir sem ter tido um contato

não preciso morrer para perder
o que me anima.
para morrer me basta estar embrulhado
naquilo que pensaria ser só em mim:
receber o sinal de mim mesmo

(me colocaria em pé:
estátua esquecida
me colocaria posto:
morto encaixotado

ficaria numa respiração sufocada
dentro de um invólucro dispensável
como a alma pensa do corpo

ficaria numa embalagem de proteção
como aqueles produtos vendidos em lojas
para os quais se requer todo cuidado)

para ter o que me anima
me basta saber que o invisível está no corpo sentido
me basta saber que, sozinho, não sinto
me animo mesmo com os outros que chegam

5 de jan. de 2012

BASTA SE SENTAR À MINHA FRENTE


basta se sentar à minha frente
nem preciso chegar pela mão
porque sei tocar bem de leve,
meus olhos aprenderam a ver.
chegam muito discretamente
num gesto de pequena violação
a quem gosto e não sabe ver
na cisma de traje que o preserve

do que os olhos podem alcançar
o outro pode não ter conhecimento
mas sob a linha da visão existe
o que se pode sentir na textura:
desliza sobre a pele, sabe deitar
no macio áspero e no tocar lento
que desce num tempo que dura.
pra se ver é que um corpo existe