existem rios nas cidades
mas não são rios
não passam
não seguem
estagnados
por isso, a cidade não passa
vive extensa
num estacionamento
do tamanho dela mesma
sem o tempo dos rios
nada escoa
a cidade não passa
as pessoas param
(estranhas de nome,
as cidades não fluem
essas fluminenses e outras
não fluem
de que nos vale
um Rio em nome escrito
se travada em letra
sua palavra não escoa
pois feito poça
parou sem sua água?)
passamos sobre rios e pontes
mas sob os olhos
nenhum rio nos passa.
ninguém passa por uma cidade
se antes um rio
por ela não passar
16 de mar. de 2012
29 de fev. de 2012
ESQUINAS
a esquina da rua de cima
larga
e só,
esquina grande
mas só
do outro lado
a esquina da rua de baixo
curta, breve
uma era em medida
tão grande
como tão pequena
era aquela esquina
de baixo
mas há uma curva
em cada uma
uma curva sem mesura
a de cima
continua lá
estática
grande
mas a curva de baixo
a pequena
a de baixo
grande se vê:
sabemos da verdade
que deixamos na curva
da esquina
de baixo
verdade visível
grande
palpável
feita da mesma espessura
que se conhece o outro
feita do mesmo arco
que se desenha a mão
na grandeza de tocar
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Moventes
17 de fev. de 2012
QUEM TEM NAS MÃOS UM POEMA
quem tem nas mãos um poema
não segura um deus, é certo!
mas quem o tem aos olhos
não deve vê-lo como assistir tv
não o leia como comer biscoitos
no passatempo vazio de esquecer,
nem como quem para fingir a dor
ingere remédio de efeito efêmero
um poema faz esquecer de vez
depois de o ler é para sempre.
não se volta, não distrai a hora
do tédio de pensar no dia seguinte
a marca que se lê não se perde
mas lembra no momento de hoje.
o prazer que pode ler um verso
vem de comer na verdade da fome
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Moventes
3 de fev. de 2012
PASSANDO PELA RUA
passam dois, quatro, seis olhos
me olham
como se quisessem descobrir
o que no instante reluz
provável que tenham no desejo
o que dos meus olhos escapa
(poderia pensar que me vigiam
ou me convocam.
no entanto, essas oscilações
não importam
poderiam me julgar que eu nos olhos
do meu sujeito exacerbado
vejo os olhos alheios
por dentro dos meus)
alguns podem não ter consciência
e sentem no olhar,
mas outros sabem
pelo imediato do olhar
o que seu também sabe sentir
é que os corpos acordam
ao encontro dos que passam,
por isso se dá passagem
à transpiração entre olhos:
na verdade, quem vejo
quem me vê
é o Amor de minutos atrás
no corpo ainda sinto
e aos olhos se revela
translucidamente
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23 de jan. de 2012
PARTÍCULAS DE SONHO
tem dias que se sonha menos
que um sonho qualquer
tem dias que se sonha mais
que o sonho dos sonhos
mais elevados
tem dias que se sonha menos
do que sonham
aqueles que pensam
que nada sonham
mas tem dias que os mesmos
sonhos são sonhados
por todos em um sonho
os sonhos sabem sonhar o nada
o tudo e o mesmo
sabem sonhar de mais
e de menos
sabem sonhar em massa
tem dias em que o sonho
firme nas alturas
sonha só:
independente de nós
que o sonhamos
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Moventes
11 de jan. de 2012
ÂNIMA
para ter o que anima
não me basta sentir que basto
não me basta saber do invisível que me move
o invisível que há em mim, sozinho, não me anima.
se assim fosse, seria eu um satélite
em posição tão longínqua
que, sozinho, ficaria vagando
num espaço sem poder receber
um simples sinal.
ficaria girando e girando
para, depois de tão tonto,
explodir sem ter tido um contato
não preciso morrer para perder
o que me anima.
para morrer me basta estar embrulhado
naquilo que pensaria ser só em mim:
receber o sinal de mim mesmo
(me colocaria em pé:
estátua esquecida
me colocaria posto:
morto encaixotado
ficaria numa respiração sufocada
dentro de um invólucro dispensável
como a alma pensa do corpo
ficaria numa embalagem de proteção
como aqueles produtos vendidos em lojas
para os quais se requer todo cuidado)
para ter o que me anima
me basta saber que o invisível está no corpo sentido
me basta saber que, sozinho, não sinto
me animo mesmo com os outros que chegam
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Gagueiras
5 de jan. de 2012
BASTA SE SENTAR À MINHA FRENTE
basta se sentar à minha frente
nem preciso chegar pela mão
porque sei tocar bem de leve,
meus olhos aprenderam a ver.
chegam muito discretamente
num gesto de pequena violação
a quem gosto e não sabe ver
na cisma de traje que o preserve
do que os olhos podem alcançar
o outro pode não ter conhecimento
mas sob a linha da visão existe
o que se pode sentir na textura:
desliza sobre a pele, sabe deitar
no macio áspero e no tocar lento
que desce num tempo que dura.
pra se ver é que um corpo existe
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poemas-corpo
25 de dez. de 2011
VERSO-OLHO RELUZENTE
eu
mal vejo
a cidade.
juntos mal andamos.
o astro de seus postes
não ilumina o noturno:
fraco é o olho da cidade.
e ainda que ela me desencontre
surgirá um olho em alguma esquina
(não o das portas do comércio que se abrem
não o olho da manhã serviçal dos ônibus
nem mesmo espere que este olho seja o meu)
espere que de uma esquina um dia se possa ver
um verso-olho reluzente pelo espaço vasto
pelas ruas se estenderá assim maior que um alexandrino
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Moventes
13 de dez. de 2011
ELEGIA
já havia morrido quando nasci
o rio que atravessou a infância
mas ainda assim ficava a olhar
a língua escura que ali corria
restaram os contos de um dia
que nos escorriam em banho
as crianças ao pé do rio morto
miravam o céu à espera da chuva:
seria o encontro das fortes águas
arrastaria as mortes flutuantes
mas a chuva veio e miramos o rio
e ficamos na água azul das alturas
movimentamos o céu por vezes
na enchente das sílabas de águas
as crianças entre o céu e o rio
nunca se banharam rio a dentro
já havia morrido quando nasci
o rio que atravessou a infância
o rio que atravessou a infância
mas ainda assim ficava a olhar
a língua escura que ali corria
restaram os contos de um dia
que nos escorriam em banho
as crianças ao pé do rio morto
miravam o céu à espera da chuva:
seria o encontro das fortes águas
arrastaria as mortes flutuantes
mas a chuva veio e miramos o rio
e ficamos na água azul das alturas
movimentamos o céu por vezes
na enchente das sílabas de águas
as crianças entre o céu e o rio
nunca se banharam rio a dentro
já havia morrido quando nasci
o rio que atravessou a infância
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Moventes
30 de nov. de 2011
ANDO MUITO LENTO, MUITO LENTO
ando muito lento
mais lento que a lentidão
talvez mais lento que o animal mais lento
por isso tenho infinitas afinidades
com uma senhora - minha vizinha.
quando saímos juntos, andamos tão lentamente,
andamos numa lentidão superior às fraquezas dos ossos.
superior até mesmo a qualquer retardamento mental.
nessa lentidão especial é que conversamos
caminhamos quase parados
sempre parado, assim fico
sempre parado
como quem não sabe se vai ou se fica
sem saber qual é a próxima parada
tão parado que não sei nem mesmo onde parar
a rua corre, a cidade cresce
a cidade julga caminhar em velocidade
as mensagens voam,
e tudo me faz querer parar
quando olho ao meu redor
e vejo passar o automóvel
ou a nave mais veloz do mundo
sinto-me plantado no chão
empacado como o automóvel mais velho do mundo
identifico-me com uma árvore na calçada
com um camelô no meio do caminho
com um poste, um assento, uma avenida congestionada
a cidade se julga muito rápida
mas subo e desço as ruas lentamente.
alguma coisa na cidade sonha a rapidez
mas nela só há arrastados passos
e caminhamos nas ruas
eu e minha vizinha
dirão que o retardo em mim
provém do excesso de cidade.
dirão que sou um vencido.
mas minha lentidão é inerente
sempre estive lento
demorei a nascer
e nesta cena me mantenho
como um drama sem ato
mais lento que a lentidão
talvez mais lento que o animal mais lento
por isso tenho infinitas afinidades
com uma senhora - minha vizinha.
quando saímos juntos, andamos tão lentamente,
andamos numa lentidão superior às fraquezas dos ossos.
superior até mesmo a qualquer retardamento mental.
nessa lentidão especial é que conversamos
caminhamos quase parados
sempre parado, assim fico
sempre parado
como quem não sabe se vai ou se fica
sem saber qual é a próxima parada
tão parado que não sei nem mesmo onde parar
a rua corre, a cidade cresce
a cidade julga caminhar em velocidade
as mensagens voam,
e tudo me faz querer parar
quando olho ao meu redor
e vejo passar o automóvel
ou a nave mais veloz do mundo
sinto-me plantado no chão
empacado como o automóvel mais velho do mundo
identifico-me com uma árvore na calçada
com um camelô no meio do caminho
com um poste, um assento, uma avenida congestionada
a cidade se julga muito rápida
mas subo e desço as ruas lentamente.
alguma coisa na cidade sonha a rapidez
mas nela só há arrastados passos
e caminhamos nas ruas
eu e minha vizinha
dirão que o retardo em mim
provém do excesso de cidade.
dirão que sou um vencido.
mas minha lentidão é inerente
sempre estive lento
demorei a nascer
e nesta cena me mantenho
como um drama sem ato
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Gagueiras
18 de nov. de 2011
NECESSIDADES
organizaram minhas necessidades sem eu pedir
ontem mesmo decidiram por mim
que preciso suprir todas as minhas carências.
terei de pô-las umas sobre as outras,
numa sequência hierárquica das necessidades
amanhã receberei a tabela do que se deve fazer
minhas prioridades conhecerei amanhã
aparelharam em mim os elementos indispensáveis
aceitei sem saber. Entrei num estado de passividade
como quem se desliga e se liga frente a uma tela.
amanhã serei os corredores de uma empresa
uma mão invisível me medirá, serei os departamentos
passarei como veículo que carrega ou de pé estarei
feito uma estante firme com espaço a ser preenchido
seguirei a viver numa sequência de necessidades
como os que abastecem os sentidos como depósitos
expostos um sobre o outro numa escala eterna
de ir e vir ao mesmo ponto de querer a mesma coisa.
substituíram ordenadamente minhas necessidades
organizaram administrativamente minhas vontades
energizaram meu corpo como uma embalagem
ontem mesmo decidiram por mim
que preciso suprir todas as minhas carências.
terei de pô-las umas sobre as outras,
numa sequência hierárquica das necessidades
amanhã receberei a tabela do que se deve fazer
minhas prioridades conhecerei amanhã
aparelharam em mim os elementos indispensáveis
aceitei sem saber. Entrei num estado de passividade
como quem se desliga e se liga frente a uma tela.
amanhã serei os corredores de uma empresa
uma mão invisível me medirá, serei os departamentos
passarei como veículo que carrega ou de pé estarei
feito uma estante firme com espaço a ser preenchido
seguirei a viver numa sequência de necessidades
como os que abastecem os sentidos como depósitos
expostos um sobre o outro numa escala eterna
de ir e vir ao mesmo ponto de querer a mesma coisa.
substituíram ordenadamente minhas necessidades
organizaram administrativamente minhas vontades
energizaram meu corpo como uma embalagem
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Gagueiras
6 de nov. de 2011
PRIMEIRA NOITE
estive por inteiro num corpo
que não conhecia
era a primeira noite
lembro que a noite era
de muita chuva
e hoje me chovem as noites e os dias
jamais saberei quem foi este
tu que vieste
na presença de um sonho
de transpirar
quando acordei
pulsando e trêmulo
encharcava todo o quarto
e já deitado sobre
o lençol branco
sobre a terra estendido
respirei o odor branco de chuva
o cheiro de corpo molhado
do rosto com quem sonhei
vislumbro poucos traços
mas tenho sob a vista
sobre a cama
o instante do sonho
derretido em branco
que não conhecia
era a primeira noite
lembro que a noite era
de muita chuva
e hoje me chovem as noites e os dias
jamais saberei quem foi este
tu que vieste
na presença de um sonho
de transpirar
quando acordei
pulsando e trêmulo
encharcava todo o quarto
e já deitado sobre
o lençol branco
sobre a terra estendido
respirei o odor branco de chuva
o cheiro de corpo molhado
do rosto com quem sonhei
vislumbro poucos traços
mas tenho sob a vista
sobre a cama
o instante do sonho
derretido em branco
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