17 de ago de 2009

A Harmonia na Leitura de um Clássico


Existem excelentes poemas que são leituras a partir de textos clássicos. Acredito que nessa relação direta não há nenhuma angústia, nenhum combate de leituras, nenhuma oposição. Ao contrário, percebo, ainda quando o poeta se distancia inteiramente do poema lido, uma grande harmonia. No que se pode identificar destruição ou guerra vejo somente o artista tentando criar no seu tempo, na sua forma, pois aquilo que se tornou modelo a ele não se adapta mais.

A referência a um outro texto por si só já apresenta o acolhimento ao clássico. Mas que nada tem a ver com submissão ou superação (esta ação se ajusta às guerras). Nas artes esse respeito é harmônico, pois se aprende que cada diálogo simplesmente se faz porque surge uma criação - surgindo também um gesto que se eleva. Mas tal momento somente acontece quando o artista se conhece desconhecendo-se. Trabalho dificílimo.


Uma grande obra, nesse caso, acontece pela grande harmonia que um artista que se propõe a criar a si próprio. Essa harmonia se constitui também por um grande diálogo que não se opõe à tradição, mas que se harmoniza com os clássicos. Com isso se pode verificar que uma obra se constrói não pela oposição, mas por um acolhimento do outro.


Ler o outro é se permitir a aprender a conhecer por desconhecer a si próprio. É um caminho que precisamos atravessar atentamente. Sendo assim, não é um confronto que restringiria o outro a um elemento opositivo. O que há de criação se perde caso se dê valor ao que há de contrários. Certamente um jogo dialético limitado e violento. Diante de um traço harmônico de leitura se vê a tentativa de um poema fazer jus a outro. Um poema que se volta para um clássico se torna grande por um traço que ressalto no momento: a leitura harmônica que faz criar um outro seu. Na verdade, a leitura é esse grande  esforço por alcançar. 


Jefferson Bessa



6 comentários:

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

foi um prazer ler a sua reflexão sobre o diálogo entre a tradição e a criação do poeta no seu tempo , na revelação de si , na sua busca .
Toda a escrita é violência , ela desarma o mundo atingindo-o no seu pulsar próprio.
cordialmente
_______ JRMarto

Jefferson Bessa disse...

Prazer tenho eu em ler seu comentário, JR Marto. Importante saírmos desses extremos onde prevalece as oposições. Assim chegaremos, como você mesmo disse, ao "pulsar próprio".

Muito obrigado pela leitura.
Grande abraço.
Jefferson.

dade amorim disse...

Toda leitura de um texto que nos dá prazer ou nos toca de algum modo me parece um pouco essa tentativa de harmonizar leitor e autor, em busca de um ou mais sentidos que se acrescentam ao texto lido. No caso dos clássicos, as diferenças da própria linguagem e do estilo dão ainda mais ênfase a esse processo.
Um ótimo post, Jefferson.
Abraço pra você.

Jonathan disse...

Jefferson,
Que texto maravilhoso!!! Muito inteligente e perspicaz!!! Brilhante!!!!

Abraços!!!!

Jefferson Bessa disse...

Sim, Adelaide, a leitura é um caminho que harmoniza não só o leitor em relação ao outro, mas harmoniza o leitor consigo mesmo. Um abraço para vc.

Jefferson Bessa disse...

Jonathan, obrigado pela leitura. Bom que você tenha gostado. Valeu mesmo.

Um abraço.