4 de jul de 2017

DESTRABALHAR


deve trabalhar - ouço desde criança.
deve trabalhar todos os dias, oito horas
ou mais tempo na hora extra.
mas extra é o próprio trabalho,
os dias querem me trabalhar
para agora ficar aqui trabalhado.
mas basta destrabalhar para ver que esta vida é hora extra
porque o extra dos dias sempre nos quer trabalhar
para viver no serviço das horas.

poderão pensar que sou vagabundo
mas o que fazer com quem vive em extremos
e só entende duas afirmações:
"trabalho, por isso não sou vagabundo"
e "vagabundeio, por isso não sou trabalhador".

digo que não sou nem um nem outro,
pois ser trabalhador ou vagabundo se assemelham.
não participo do cristianismo de gravatas e trapos
nem da dignidade laborativa de caridade
nem da mendicância invejosa de querer o adoçante alheio
nem das vantagens de liquidações comerciais para dar felicidades liquidadas.

quando destrabalho me despeço do tempo medido
me despeço da riqueza e da pobreza.
me despeço de facilidades
de felicidades e tristezas.
Sou este que destrabalha
porque não fico nem rico nem pobre,
portanto não preciso enriquecer ou roubar.

encerrado na cidade, uma vez ouvi de um homem
que falava de trabalho como obrigação.
mas obrigar ou pedir obrigado é brigar com alguém.
para ele a obrigação abriga
para mim a obrigação extrai briga.
digo briga, pois pergunto: para que e para quem se trabalha?
não fico só em dependências interrogativas quando destrabalho.
me dizem para ter cuidado, pois posso ser preso,
mas na cidade estamos presos às obrigações.
os vagabundos estão presos, porque querem dos trabalhadores.
os trabalhadores estão presos, porque querem o trabalho dos vagabundos.
ricos e pobres estão nesta mesma cidade e se avizinham.
tudo isso tem a aparência de natural
e, ao mesmo tempo, tudo passa como entretenimento.

um dia desse veio um mendigo me pedir
me obrigava a lhe dar uma esmola.
em seguida, um outro me obrigava a comprar, pois dizia que estava a trabalho.
ora veja, mendigo mesmo não obriga a receber esmola.
lhe disse que era um trabalhador vestido de mendigo
e ao outro disse que nenhum trabalho obriga a ninguém comprar.

o destrabalho vive com pouco
para quê ter mais do que necessito?
ou ter além do que posso ter?
me cobrarão cuidado, pois "mente vazia é oficina do diabo"
querem me colocar o diabo para me obrigar
para me fazer pensar que não valho nada.
para eles não valho mesmo,
porque o diabo na minha mente vazia brinca.

agora, atenção, muita atenção, não com o diabo
mas com quem quer te trabalhar o trabalho.
todos os diabos vêm de lá.
querem me preencher de medos, de intimações,
me acham muito vazio.

vivo com pouco e gosto de conversar
e ouvir quem destrabalha.
nos juntamos lá na esquina - não para futilidades.
lá vem minha vizinha, vem sempre muito lenta
teremos muito destrabalho
não precisamos de nada além do que temos.
ela chega e a conversa também segue lenta
ali vamos destrabalhando.

Do e-livro Água Fria (2017)

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