7 de abr de 2010

PAREDE DESCASCADA

Minor White - Peeled Paint

Rochester, New York (1959)



move-se o estalido que abre a casca
voz no canto inferior da parede
onde o horizonte do quarto se levanta

sem pressa o som se ergue
na parede a camada de vida vibra
a tinta se abre, desprende-se do concreto

o ruído crescente de galhos
a pequena árvore que irrompe
tronco espesso rente à parede
- madeira de casco denso – tremor de fissuras

rebenta a cor, sobre o concreto se movem as linhas
no quarto brotam as rachaduras
fraturas
cicatrizes

sobem linhas a caminho – rios se desenham
balançam como o vento de fora.
não há que ver por dentro
nada há dentro da tinta
não há nada atrás da parede
a descasca brilha na quina do quarto
logo ali onde se pode ver como fruto
como se abrisse pela primeira vez
sem saber ainda o sabor

6 comentários:

dade amorim disse...

Um bom poema pode tudo, Jefferson.
E esse é ótimo.

Beijo!

maria azenha disse...

belo poema,natural, flui...

Beijo,

Wilson Torres Nanini disse...

Você descre um ângulo de fuga e acena a ele com desdém, encarando a vida. Mesmo que o quarto todo se dê às ruínas, além-paredes o que veremos é fruto suculento: um poema com uma estrutura maravilhosa, cujo ritmo encena perfeitamente a proposta do tema.

Abraços!

Sylvia Beirute disse...

beleza rara a deste poema. mesmo rara.

abraço

Angélica Lins disse...

Poeta raro...Adoro ler-te!

=)

Gerana Damulakis disse...

Como quem pinta, desenha e traça poesia. Bem bacana.